TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
EFE OITENTA E QUATRO
Preciso voltar ao assunto, mesmo que incomode algumas pessoas: é constantemente crescente o número de crianças que chega à minha clínica com diagnósticos de autismo, mas não são autistas. E é cada vez mais comum o "diagnóstico" ser feito pela família ou pela escola.
A meu ver, isso ocorre por causa da maciça propaganda que se faz nestas redes, em especial o slogan "o Brasil precisa conhecer o autismo". Como nenhum de nós é capaz de descrever o que é autismo, todos e qualquer um podem ser autistas, basta escolher os parâmetros que mais convém. Por isso insisto a campanha "o Brasil precisa conhecer o autista".
Então preciso voltar ao assunto: os diagnósticos de autismo têm sido falhos, principalmente porque interessa ao movimento aumentar o número de autistas. Mas cometem falhas primárias, condenadas pela academia: 1 - não se diagnostica por sintomas; 2 - não se tratam os sintomas antes de saber as causas.
Como os sintomas autistas podem ser provocados por diversas situações, médicas, mentais, psicológicas e sociais, repito aqui os passos corretos e necessários para um diagnóstico correto:
a - a criança chega ao médico com sintomas de autismo. Ele pede exames para descartar a ocorrência de síndromes conhecidas que causam os sintomas (Rett, Angelman, Prader-Willi, West, Willians, Moebius, Down, X-Frágil, etc...). Se algum deles der positivo, a criança não é autista. Cuida-se da síndrome genética que os exames apontaram, melhorando a qualidade de vida da criança; se todos derem negativo, passa-se ao ítem seguinte.
b - o psicólogo observa e aplica testes na criança para verificar se os sintomas de autismo não têm causas psicológicas (depressão, ansiedade, traumas profundos, alienação parental, maus tratos, abusos, oligofrenia, rebaixamento cognitivo, etc...). Se uma dessas condições estiver presente, a criança em princípio não é autista e inicia-se o tratamento do desconforto que provoca os sintomas. Se nenhuma das condições psicológicas estiver presente, passa-se ao item seguinte.
c - a Assistente Social vai à residência da criança, em busca de causas para os sintomas (habitação inadequada, excesso de pessoas no mesmo cômodo, família desestruturada, etc...). Se algum desses fatores surgir, cuida-se das intervenções necessárias ao bem-estar da criança e da família. Se nenhuma delas estiver presente, o relatório positivo volta ao médico, que diagnostica autismo, com a certeza do laudo correto.
Toda pessoa tem direito a um diagnóstico correto. Admira-me que a luta por esse direito não faça parte do movimento autista, que prefere ir às ruas lutar por uma bandeira disforme e sem coerência. Porque, dependendo do lugar que você vá para participar da campanha, vai conhecer um autismo muito diferente.
Pergunta: como o Brasil vai conhecer o autismo, se nem mesmo nós, os mais engajados, sabemos o que é? Como explicarei para as demais pessoas o que é autismo? Faço essa pergunta em todas as palestras que dou, e nunca ninguém conseguiu me dizer o que é autismo, mas nem mesmo os maiores especialistas conseguem responder a essa pergunta.
Desculpe voltar ao tema, mas quando começaremos a usar nossa energia para exigir diagnósticos corretos? Por que cada vez mais vejo, nas escolas, na Associação, no consultório, autistas que não são autistas? Não poderíamos pensar seriamente nisso?
Você poderia pensar?
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