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Mostrando postagens de abril, 2017

O NÃO NÃO ENSINA, EXERCITE O SIM.

Texto de Manuel Vázquez Gil 1 - é fácil demonstrar que o não não ensina. Tente ensinar tabuada com o não: 2x2 não é 5; 2x3 não é 8, 2x4 não é 3. Ou história: quem descobriu o Brasil não foi Cristóvão Colombo. Ou geografia: a capital do Brasil não é Curitiba. O não tem o poder de liberar "toxinas" no cérebro que paralisam a ação: quando uma pessoa ouve um não, dificilmente ela ouve o que vem  depois, o simples e puro "não" basta para que tudo o que o complementa perca o sentido e seja descartado. Ah, tá! Mas como educar sem o não? 2 - dou exemplos. A entrada e saída da escola, por exemplo: um milhão de carros atravancam a rua, param sobre a faixa de pedestres, buzinam, esbarram, atrapalham pedestres (que são os alunos e seus pais). Eu estaciono na avenida, a 50 metros da escola, ando devagar até lá, troco ideias com o Ninho, o porteiro simpático, abraço e sou abraçado pelas crianças, ganho marquinhas de boquinhas nas bochechas, paquero as moças da cantina e ...

THE GOOD ENOUGH MOTHER

Texto de Manuel Vázquez Gil Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, desenvolveu um campo próprio para atuar como psicanalista, provavelmente induzido pela sua rotina profissional de cuidar de crianças. Teve, além disso, oportunidade histórica singular: durante a segunda guerra, quando Hitler ameaçava bombardear Londres, o governo inglês estabeleceu um programa de retirar todas as crianças da cidade, para “preservar o futuro”, e envia-las a um lugar seguro. Esse lugar seguro era liderado pelo pediatra Winnicott, que pode observar o comportamento de crianças arrancadas do seu lar e separada dos pais o tempo suficiente para confirmar hipóteses que, como psicanalista, já aventava. Para Winnicott, toda pessoa tem potencial alto de desenvolvimento, e o ambiente do lar, proporcionado pelos pais, mas em especial pela mãe, é o motor desse crescimento, por três principais motivos: a) a condição natural de proporcionar maior desenvolvimento; b) a relativa constância da família; c) a mai...

A baleia azul

Texto de Manuel Vázquez Gil Algumas pessoas têm me pedido para falar sobre a Baleia Azul, querem saber minha opinião, como devem orientar os jovens sobre o jogo, o que falar na escola quando o assunto aflora. Eu acho que a Baleia Azul é mais um álibi que encontramos para culpar o outro pelas nossas próprias dores e pelos sofrimentos que causamos aos nossos filhos e aos filhos dos outros.  Parece que o pequeno retângulo de papel a que damos o nome de diagnóstico já não está conseguindo mais esconder noss as fragilidades e distanciamentos. Jovens têm se suicidado em números alarmantes e cada vez mais crescentes. Sempre vamos procurar as razões fora de nós. Sempre buscaremos culpados fora de nós. A Baleia Azul é mais um desses culpados. Tomara sirva para nos alertar de que temos falhado, e muito, com esses jovens que só estão perdidos porque não nos acham em lugar nenhum. Como qualquer vício, a Baleia Azul serve pra tapar buracos. Buracos não existiriam se estivéssemos...

VOCÊ É PSICANALISTA?

Texto de Manuel Vázquez Gil Não tenha medo, é uma pergunta retórica, mas que pode ajudar você a compreender seu método mental de resolver problemas e sua visão de mundo. Acompanhe atentamente: 1 – Psicanálise é a junção de Psico (mente) + análise (decompor um trem complexo em seus diversos elementos). Já na sua apresentação, dissocia-se da Psicologia, que significa “estudo da mente”. Ou seja: a Psicologia estuda, a Psicanálise decompõe. Isso faz grande diferença. Pense no Psicólogo como um arguto detetive que vai juntando evidências para compor o quadro final do crime e do culpado, e pense no Psicanalista como o observador que fica fora da cena do crime, observando todo o cenário e separando seus elementos, para compreender cada um individualmente. 2 – Análise é oriunda do grego “análysis” que, como citei logo acima, significa o que expliquei significar. Mas o temo análysis tem raízes mais profundas e antigas: teve origem na união de ‘aná’ (para cima) + lyein (soltar, decompor)....

O QUE É REAL?

Texto de Manuel Vázquez Gil Jonathan tem 8 anos e cursa o terceiro ano no período da tarde. É muito tímido, introvertido, quase sempre se afasta da turma e só participa quando insistem bastante. É um bom aluno, educado e cuidadoso com o material. A professora acredita que, por causa da timidez excessiva, ele não tira notas boas na avaliação, que tem dificuldades para dizer que ficou com dúvidas, e isso prejudica seu desempenho. No começo do segundo semestre do ano passado Jonathan apresent ou Letícia, sua irmã mais velha, que estuda no oitavo ano da manhã. Como seus pais trabalham, Letícia cuida dele e fica com ele na escola. Senta na carteira ao lado dele, que é uma espécie de carteira cativa, portanto ninguém pode sentar ali. Jonathan foi muito claro: Letícia é minha irmã imaginária! Honesto e ético, Jonathan senta na primeira carteira da sala em dias de prova. Segundo ele, Letícia é inteligente e está mais adiantada, e gosta de ajuda-lo em tudo, inclusive passando cola. En...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

RESSURREIÇÃO

Poema de Manuel Vázquez Gil Quando eu era um menino nada me detinha. Até a grande montanha que acolhia lobos e obstruía o sol era toda minha. Na água que descia o rio, na palidez da lua, em tudo que tinha vida havia genes meus: eu era a pedra bruta que pavimentava a rua. da noite escura e fria, à casa do moinho, nada existia sem o meu consentimento, nada vicejava fora do meu caminho. Entre as contas do rosário minha mãe, coitada, tentava me dizer que tudo era obra de Deus. Eu nunca tive coragem para lhe dizer que eram projetos meus. Não era simples impressão, era total certeza: eu era a luz, a escuridão, a água, a relva, a solidão, a guerra, a paz. Eu era a natureza! Entre o crepitar da lenha e o debulhar do milho, minha mãe não percebeu que o filho de Maria e de José era seu próprio filho. Então cresci e o sentimento de abandono fez ninho no meu peito. Eu era apenas um pequeno objeto, um instrumento do destino inquieto no meu leito. Devia ter deixado minha mãe saber ...

O DOM

Texto de Manuel Vázquez Gil Embora seja fruto de pesquisas cuidadosas e observações efetuadas ao longo de uma década, o Dom do Autismo é irritantemente simples. Porque parte do princípio de que uma resposta só é resposta se for mais curta e clara do que a pergunta. Se uma resposta provoca outra pergunta, não foi resposta, mas apenas uma ponte entre duas perguntas. E o que queremos, você sabe, são respostas. Para sistematizar o projeto, fui buscar o que o autista quer, o que ele me diz, sugere, aprova. O Dom do Autismo é um sistema desenhado por autistas e digitado por mim. E que é revisado por eles o tempo todo. Nesse sistema, eles são os sujeitos, nós apenas seguimos suas orientações e demandas. Com certeza, esse é o segredo do sucesso do sistema: você dá ao sujeito o que o sujeito quer, e o que ele quer é justamente o que precisa. O princípio moral do sistema é a percepção dos papeis: nas ações cotidianas, cada personagem na vida de um autista precisa ter papeis perfeitament...

As formas da mente

Texto de Manuel Vázquez Gil  Desenho do Luan Cientistas que se denominam "neuro" criam métodos e ferramentas na tentativa de mapear o cérebro, e acreditando que, obtendo o mapa, vão decifrar a mente. Como faziam os cartógrafos do Séc. XV. Não param pra pensar que cérebro é uma coisa, mente é outra, e que não existe nenhum método não invasivo de estudar a mente: a simples presença do examinador na frente do sujeito muda a configuração da ment e e o modo de pensar. O método menos invasivo (e não é que não seja) de estudar a mente de um sujeito é a Psicanálise. Embora, claro, seja imperfeito, porque depende, como em qualquer atividade humana, da interpretação do analista. Luan dá uma palhinha: está é um desenho de 2013, quando ele tinha 11 anos, feito durante uma "fuga para o seu próprio mundo", na sala de aula, e ao qual ele mesmo deu o título de "as formas da mente". Análises?

Psicanálise e o Dom Do Autismo

Texto de Manuel Vázquez Gil Ao contrário do que comumente pensamos, nenhum de nós faz a vida que deseja viver, mas é justamente o contrário: a vida nos faz. Acontecimentos que nos marcam ficam tatuados na alma e na mente, e somos o produto da soma de todos eles. Queiramos ou não, a vida sempre passa, cabe a nós observar atentamente e aprender com os amores e as dores que surgem no nosso caminho. Meu relacionamento com o autismo e meu modo particular de lidar com o assunto vem da história de vida rica e singular que vivi. A começar pelo fato de que sou uma das poucas pessoas que você conhece que começou a estudar o autismo anos antes de conhecer um autista. E de começar a cuidar de famílias autistas uma década antes de meu filho nascer. Ou seja: não foi um parente, um aluno ou um cliente que me jogou nessa fogueira, foi meu interesse natural em conhecer os labirintos autistas. Sou a somatória da influência boa do meu velho pai, que me ensinou a amar o outro sem esperar recompensa...

Alejandro, Freud, Grodeck, Luan e Eu

Texto de Manuel Vázquez Gil A vida nos molda todos os dias, o tempo todo, deixemos ou não. Ao caminhar, deixamos pegadas, mas nem sempre percebemos que, se por um lado pisamos nos rastros deixados por alguém que por ali caminhou antes de nós, também outros caminharão sobre os rastros que nós deixamos. Daí que somos o produto dos passos que pessoas queridas marcaram antes de nós, e somos responsáveis pelas pegadas que deixamos e outros que nos amam ou admiram seguirão. Algumas mulheres marcaram a minha vida, mas quatro homens construíram meu ser. O mais importante deles foi meu pai Alejandro, que me ensinou, na prática, o conceito de bondade, de dar sem olhar a quem e nada pedir em troca e a sensibilidade de chorar com o outro, rir com o outro, amar com o outro. Depois, meu filho Luan, que me ensina todos os dias a tolerância com os diferentes e a paz da certeza de ser o que é. Deles compreendi que a suprema tarefa de um homem na terra é ser feliz, mas que a felicidade só é possív...

MELANIE

Texto de Manuel Vázquez Gil Abro um pequeno parêntesis para falar sobre Melanie Klein, psicanalista austríaca que rompeu com a linha de Freud para elaborar um sistema de psicanálise para crianças, afinal hoje é sábado de aleluia, dia da mulher que sofre sua maior perda. Vale a pena falar dela porque é mulher, viveu e cresceu dentro de uma família matriarcal, conviveu com inúmeros lutos desde a primeira infância e era mãe de três filhos quando se voltou para a Psicanálise, depois de deitar anos a fio nos divãs de psicanalistas. Interessante que Melanie acelerou seu sistema a partir de um desentendimento teórico com Anna Freud, filha do cara e que estaria no firmamento também, se não fosse filha dele. Quando Anna publicou O Tratamento Psicanalítico em Crianças, em 1927, Melanie leu e não gostou. Iniciou um movimento de separação, e da construção de uma Sociedade Psicanalítica Kleiniana.  Para concretizar suas ideias, Melanie cuidou de Dick, um menino autista, durante 17 anos, ...

Ser Psicólogo

Texto de Manuel Vázquez Gil Não é mamão com açúcar, para usar uma expressão do meu filho para provas fáceis. Mas a tarefa fica facilitada se seguirmos pequenas regras de ética que a profissão exige. O psicólogo é um médico de almas, aquele em quem o cliente deposita seus mais guardados segredos. Para que esses segredos sejam revelados, o que é fundamental para o sucesso da tarefa, o cliente precisa confiar cegamente no psicólogo. Quer dizer que o psicólogo tem que ser digno dessa confiança , ou tudo desmoronará. O psicólogo faz um contrato verbal com o seu cliente, e apenas com ele. Não permite que ninguém – eu disse ninguém – se intrometa entre seu cliente e ele. A ninguém – eu disse ninguém - ele abrirá um milímetro do que acontece no set. De ninguém – eu disse ninguém – ele aceitará sugestões de como modificar seu cliente. O psicólogo nunca é o sujeito da ação terapêutica. Ele está a serviço dos desejos e ansiedades do seu cliente. Por isso se chama cliente: porque é o su...

A páscoa nossa de cada dia

De acordo com o site "Sua Pesquisa", Páscoa é uma das datas comemorativas mais importantes entre as culturas ocidentais. A origem desta comemoração remonta muitos séculos atrás. O termo “Páscoa” tem uma origem religiosa que vem do latim Pascae. Na Grécia Antiga, este termo também é encontrado como Paska. Porém sua origem mais remota é entre os hebreus, onde aparece o termo Pesach, cujo significado é passagem.   Historiadores encontraram informaçõe s que levam a concluir que uma festa de passagem era comemorada entre povos europeus há milhares de anos atrás. Principalmente na região do Mediterrâneo, algumas sociedades, entre elas a grega, festejavam a passagem do inverno para a primavera, durante o mês de março. Geralmente, esta festa era realizada na primeira lua cheia da época das flores. Entre os povos da Antiguidade, o fim do inverno e o começo da primavera eram de extrema importância, pois estava ligado a maiores chances de sobrevivência em função do rigoroso inv...

Lacan e os Outros

Texto de Manuel Vázquez Gil “Quando uma criança tapa os ouvidos, ela está para alguma coisa que está sendo falada – já não está no pré-verbal visto que se protege do verbo, o que atesta a sua relação com o Outro e permite afirmar que o sujeito autista está na linguagem, ainda que não fale”. (1) Esta é, com certeza, a parte mais delicada desta série, especialmente porque Lacan é ilegível para a maioria das pessoas, o que me inclui. Construí este texto amarrando meu burro em frases contundentes de Lacan e fazendo uma releitura dos conceitos de Freud que ele revisitou. Ou seja: embora se mantendo fiel ao pensamento lacaniano, o teor deste texto é fruto da minha particular compreensão como freudiano. Preciso começar dizendo que Jacques Lacan, contemporâneo nosso, que estava vivo ainda ontem (morreu em 1981), era psiquiatra. E que o desconhecimento desse pequeno “detalhe” mostra a má vontade e o preconceito que gira em torno da Psicanálise, já que tudo o que se sabe é que ele era p...

Manuel Vázquez e a questão psicanalítica

Continuo em estado de graça pelas lembranças piauienses. Mas confesso que já preciso me esforçar para cumprir a tarefa que me dei e que prometi continuar para algumas pessoas. É que, ao decidir esclarecer pontos sobre a psicanálise, só quis ser didático e pedagógico, o mais isento e claro possível. Ora, eu sei que há psicanalistas que falam besteiras, assim como há jornalistas que escrevem besteiras, médicos que fazem besteiras, pais que cometem besteiras. Mas quando um pai, um médico ou um jornalista descrevem suas funções, eles abrem um mundo novo pra mim, e então eu ouço respeitosamente. Não vou ouvir uma palestra de Elio Gaspari e depois comentar que Kim Kataguiri escreve merdas. Mesmo assim, eu me arrasto e tento manter o nível que me propus. Então, de volta ao assunto: A minha visão de saúde mental está descrita na parábola que criei da balança de ourives: num prato estão os desejos; no outro, as repressões. Desejos são do campo do Id, são regidos pelo princípio do prazer...

Auto-Enganos

Texto de Manuel Vázquez Gil Mais de 99% dos seres humanos não têm memória e são incapazes de reproduzir algo que assistiram ou viveram com fidelidade. Pior: são incapazes de reproduzir duas vezes da mesma maneira um mesmo acontecimento. A área cerebral responsável pela memória está localizada na mesma região da área responsável pelos afetos e sentimentos. Quando tentamos resgatar os acontecimentos, as duas áreas competem entre si, e ganha a que tiver maior importância no momento. Na quase totalidade dos seres humanos, ganha o afeto. Porque o afeto muda nossa vida, mas o acontecimento passado pode ser esquecido.   Dessa forma, o que nos acostumamos a chamar de memória é, na verdade, uma lembrança. Tanto que sempre nos referimos aos relatos do passado como o ato de lembrar, não de memorizar. Memória e lembrança são, na verdade quase opostas. Para os gregos, memória (mnemis) era o ato da conservação dos acontecimentos, enquanto lembrança (anamnesis) era o ato de resgatar...

Quem é você?

 Texto de Manuel  Vázquez Gil Damastes era um assaltante que vivia nos arredores de Atenas. Tinha o apelido de Procusto, que significava "o que estica". Ele assaltava os viajant es solitários e os amarrava em uma cama cheia de engrenagens. Se o assaltado fosse menor do que a cama, Procusto os esticava até ficarem do tamanho exato; se fosse maior, ele lhes cortava os excessos. O leito de Procusto era exatamente do tamanho dele. Dédalo era um engenhoso arquiteto que vivia em Atenas nessa mesma época. Com seu sobrinho Thales, ele mantinha uma oficina de invenções no centro de Atenas. Eles resolviam os problemas com invenções práticas. Por exemplo: os matemáticos da época queixavam-se das dificuldades de traçar o círculo perfeito, então Dédalo inventou o compasso. Dédalo e Thales eram autistas. Somos todos filhos de um ou de outro, e precisamos escolher qual deles desejamos ser, se filhos de Dédalo, e então precisamos andar pelo mundo inventando coisas para remover os o...

Por Manuel Vázquez Gil - I

Hoje estou feliz e leve, então resolvi dar uma canjinha de galinha pra você. Seguinte: a obra de Sigmund Freud em relação à Psicanálise tem 24 livros e 123 artigos, totalizando mais de 5.000 páginas, e traduzido em 33 idiomas. Em nenhum lugar dessa vasta obra tem a palavra "autismo", e nem uma leve referência a autismo. Nem mesmo nas dezenas de obras sobre outros assuntos médicos Freud fez menção ao autismo. Não era porque ele não conhecesse o autismo: Eugen Bleuler, amigo pe ssoal dele, falou sobre isso em 1911. Era porque Freud não se interessava por esse assunto, e porque provavelmente achava que não tinha nada a ver com a Psicanálise. Porque, se tivesse alguma relação, ele citaria. Então essa é a canja: se você for escrever algum texto sobre autismo e Psicanálise, porque de vez em quando algum desavisado volta à carga inventada pelo psiquiatra Kanner e difundida pelo psicólogo Bettelhein, e porque algumas pessoas a-d-o-r-a-m colocar a culpa no outro, seja na m...

Por Manuel Vázquez Gil

Aproveitando que estou ainda em estado de graça, por causa de tanto colo que ganhei lá em Teresina (nem vou falar do porre de cajuína), e pedindo paciência à  Claudia Zirbes , antes de falar sobre Lacan e o autismo, preciso fazer uma breve história da Psicanálise. Porque as pessoas acham que Psicanálise é um negócio tipo biscoito de polvilho ou chá de quebra-pedra: uns gostam, outros não, outros são indiferentes a eles, mas podem critica-los por causa do aroma ou do sabor. Só que não é assim, a Psicanálise, embora não seja nem queira ser uma ciência, é um vasto campo do conhecimento humano.  Eu diria que é a terceira via do conhecimento, navegando entre os dogmas religiosos e a experimentação científica. Pra você entender a Psicanálise, precisa primeiro conhecer a história da Psiquiatria: esta última surgiu no apagar das luzes do Séc. XVIII, com o movimento de Pinel, organizando a manicômio como instrumento de cura, marcando a psiquiatria como tratamento moral, e inscrev...