Texto de Manuel Vázquez Gil
A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim.
Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados, deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.
Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores".
Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no saber é incutida através de exercícios de cidadania. Precisamos urgentemente despir-nos dos preconceitos que, muitas vezes, sequer sabemos ter, e o caminho mais simples e rápido de fazer isso é educar nossos filhos e nossos alunos para a cidadania, libertando-os do assistencialismo que se propaga como fogo em nosso meio e que cria as condições ideais para o coitadismo.
Podemos começar ensinando a nossos filhos o poder destrutivo das palavras. As regras são simples, filho: cuide para não ofender ninguém, mas não se ofenda com palavras rudes que te dirigirem. Saiba que, se é errado ofender o outro, e você não ofender ninguém, você estará certo e será um bom garoto; se o outro te ofender, você também estará certo e, se não retrucar nem se aborrecer, continuará sendo um menino bom.
Em Teixeira de Freitas a repórter da TV perguntou ao Luan como ele se sentia quando alguém falava que ele era "diferente". Resposta do Luan: "respeito, é a opinião dele, cada um tem a sua. Depois eu explico pra ele que isso não é legal". "Mas não te aborrece"? "Não, é só uma opinião".
Isso é mais confiança no saber ("eu sei quem eu sou") e menos intolerância emocional baseada na fé. É desse jeito que o preconceito se esvai
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