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O SEU OLHAR

TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

O seu olhar
muda o mundo. Porque eu não sou o que sou, eu sou como você me vê. E eu me movimento na direção que seu olhar aponta, porque quero ser para você tudo o que você deseja de mim.
Uma tarde, quando abri para perguntas, após um curso no Escola Batista da Primeira, em São Vicente, uma moça se levantou, pediu o microfone, dirigiu-se à plateia e contou: 
"Nós somos três mulheres em casa, minha mãe, minha irmã mais nova e eu. Tenho um irmão autista, já adulto. Durante muitos anos nós nos revezamos para cuida-lo, porque ele tinha acessos de agressividade. Nós o amávamos, e queríamos que ele se tornasse um de nós, então nós passamos a vida toda querendo que ele mudasse, mas ele não mudava. E ficava nervoso, quebrava coisas e nos agredia. A vida foi-se tornando cada dia mais difícil, e estávamos a ponto de desistir. Assisti um dia uma palestra sua e uma palavra foi ecoando no meu cérebro: aceitação. Aquela noite cheguei em casa, abracei fortemente meu irmão e pedi perdão. Disse-lhe que o amava e queria que ele fosse o que desejasse ser, e eu aceitaria. Ele acariciou meu cabelos e ficou ali, abraçado a mim. Então a mágica se fez, e começamos a sair, não tinha mais vergonha dele, levava-o comigo ao banco, ao shopping, caminhamos pelas ruas e pelas praças, e ele nunca mais me agrediu nem quebrou coisas. Vejo o sorriso no rosto dele e sou feliz."
Nos tempos de Kanner e Asperger não havia egos nem colaborações, havia a guerra. Kanner emigrou para os Estados Unidos e Asperger ficou na Áustria, chegou a servir como médico no exército alemão. A Áustria era território alemão, o próprio Hitler nasceu lá. Os dois médicos descreveram seus casos sem possibilidades de trocar qualquer informação. Oficialmente, eram inimigos separados pela crueldade da segunda guerra mundial.
Mas Kanner era psiquiatra em Nova Iorque, enquanto Asperger era pediatra em Viena. Kanner fazia diagnósticos escuros, e tirava dos pais todas as possibilidades futuras. Tratava sintomas.
Asperger acompanhava suas crianças por toda a vida. Seu consultório no hospital chamava-se Estação Ludoterápica do Autismo. Ele fazia contato com a família, ia à escola, escolhia e orientava a professora, seguia suas crianças enquanto cresciam, não se separava deles. E acreditava. Tratava causas.
Seu olhar modificava o mundo e as pessoas que o circundavam. Ele sabia que todos tinham potencial para crescer: ele era autista!
Agora você sabe porque faço meu trabalho do jeito que faço, porque vou às casas das minhas crianças, à escola, envolvo-me com os familiares e com a escola, oriento, aprendo, acredito e sigo, não paro jamais. Porque sei que meu olhar muda o mundo e muda as pessoas. Se você perguntar aos professores das escolas que oriento o que fiz para que tudo mudasse, vão lhe dizer: "nada, ele não fez nada aqui, só nos trouxe um novo olhar."
Seu olhar muda o mundo. Aquela moça do curso da Batista aprendeu isso, mudou o olhar e a vida mudou. Eu tive sorte, e já tinha aprendido antes do meu filho chegar. Mas nunca é tarde para mudar o jeito de olhar, porque seu olhar é responsável pelo que sou e pelo que posso ser.
Prometo que serei o que seu olhar quiser que eu seja.

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