A maioria das escolas que visito, mesmo as mais interessadas e esforçadas, não sabem o que significa "escola" e não sabem o que significa "inclusão". Praticam a superação e acham que estão incluindo, só que não. A dificuldade de compreender o sentido da inclusão é compartilhado pelas famílias e, como escola é a soma de alunos, professores e familiares, a coisa emperra.
Primeiro, como o próprio nome diz, "escola" é "lugar de lazer". Vem do grego, que dá nome ao texto, e é confirmado por Maria Montessori: "uma prova do acerto da intervenção educativa é a felicidade da criança". Resumo: ou a escola é um lugar para ser feliz, ou não funciona.
Segundo, superação é o esforço individual para vencer obstáculos. Não combina com escola, que é um espaço coletivo, onde os membros do grupo se desenvolvem ancorando-se uns nos outros e trocando saberes e vivências.
Superação é o antigo e ainda muito usado modelo médico, que defende a ideia de que a pessoa com deficiência tem um defeito e tem que ser 'consertada' antes de poder participar do grupo. Só que escola é um espaço para todos, independentemente da sua deficiência.
A confusão é tanta, que os gestores de uma cidade que visitei recentemente falaram-me do maior orgulho que ostentam da sua administração: conseguiram aumentar em 4 vezes o número de "estagiários" em salas de aula. Estagiário é o nome que dão para a pessoa que fica cuidando de um autista. Chamam-no assim porque são estudantes de pedagogia os escolhidos.
O modelo segue o olhar da superação, mas esse não serve.
É um desconhecimento da legislação: a Convenção sobre a Pessoa com Deficiência trata disso no capítulo das adaptações razoáveis, a lei 12.764 deixa claro o "quando necessário", e o MEC já apaziguou o tema: auxiliar especializado é um profissional de nível médio com especialização em mediação; não pode substituir o professor da classe em nenhuma atividade; é necessário apenas e tão somente quando a criança precisa ser auxiliada em atividades da vida diária. Até por isso é um cargo de nível médio, e o auxiliar é um mediador. Mediação é uma forma de solução de conflitos na qual uma terceira pessoa, o mediador, neutra e imparcial, facilita o diálogo entre as partes, para que elas construam, com autonomia e solidariedade, a melhor solução para o problema.
Inclusão é o esforço coletivo para remover obstáculos que dificultam a pessoa com deficiência a competir em igualdade de condições com seus pares. Numa escola, o coletivo é dos educadores: professores, funcionários e familiares. Basta observar o preceito constitucional: "escola é um direito da criança, e um dever do Estado, da família e da sociedade". É deles a tarefa de remover os obstáculos, e esse é o modelo dos direitos humanos: toda criança tem os mesmo direitos e deveres, não importando sua deficiência.
Quando escola e família se esforçam para construir um ambiente inclusivo, a inclusão é natural e rápida. Quando escola e família preferem o modelo de superação, ou a inclusão não acontece, ou demora tanto que gera conflitos incontornáveis.
Todas as escolas que assessoramos reduziram o número de auxiliares especializados e os materiais adaptados na sala de aula ao mínimo, em poucos meses, e todas viram crescer a inclusão rapidamente. O melhor disso tudo é que fica visível a transformação da escola em scholé, bastando para isso observar a alegria das crianças.
Talvez você devesse repensar seriamente em meditar sobre os conceitos que lancei aqui. Se tiver dúvidas, posso lhe enviar dezenas de depoimentos de pais.
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