TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Algumas pessoas confundem adolescência com puberdade. Nessa confusão, acham que aos dezoito anos o jovem já é um adulto. Para o desenvolvimento do raciocínio que pretendo demonstrar, precisamos reconhecer as diferenças entre uma e outra.
Puberdade refere-se às mudanças físicas que marcam o fim da infância: crescimento dos seios e dos quadris, início da menstruação, nascimento dos pelos pubianos, da barba, engrossamento da voz. Ela começa por volta dos onze anos e termina perto dos dezoito.
Adolescência refere-se às mudanças psicológicas que fazem a passagem da infância para a maturidade. Antigamente seu início coincidia com o da puberdade, mas as novas tecnologias e culturas dos tempos modernos têm feito que que o início seja cada vez mais precoce, e já se notam de adolescência em crianças de oito ou nove anos. O fim do período da adolescência, no entanto, permanece o mesmo, por volta dos trinta e quatro anos.
Sim, não se espante, você só fica psicologicamente adulto depois dos trinta. O que não significa chamar você de imaturo, apenas esse processo é lento e longo, e a personalidade adulta só chega totalmente nessa idade.
Pois bem: durante a adolescência o jovem precisa elaborar três lutos: 1 - precisa matar, enterrar e esquecer o corpo da infância. Esse luto é favorecido pela relativa rapidez da adolescência, quando o corpo já está adulto aos dezoito; 2 - precisa matar e enterrar a personalidade da infância, e essa demora mais a acontecer, porque restos de infantilidade nos perseguem por toda a vida, e às vezes eles se sobrepõe ao senso de responsabilidade típico dos adultos; 3 - precisa matar e enterrar os pais da infância, e essa é a parte mais difícil, porque não depende apenas dele. Para elaborar esse luto e perceber que seus pais são humanos como todos os outros, e não super-heróis, o jovem precisa que seus pais se mostrem humanos, não super-heróis.
Acontece que, à medida que os costumes vão se abrindo e a adolescência chega cada vez mais cedo, também os pais aumentam o escudo de proteção em torno dos filhos. Isso dificulta sobremaneira o reconhecimento da humanidade dos pais. O escudo não deixa que os filhos vejam as dores, fraquezas, lágrimas, dúvidas, hesitações, mentiras, pecados e desistências típicas de qualquer ser humano, mas que ele não consegue enxergar nos pais.
Assim, não elabora o luto e, não o elaborando, não se torna adulto.
Você sabe o que é superego: é a instância psíquica responsável pela lei, por fazer cumprir as regras, as ordens, é o lado da mente que reprime e pune. Para manter-se um super-herói, um pai precisa ser quase totalmente um superego, não pode se deixar dominar pelo lado lúdico e despreocupado da criança, não pode deixar que saibam que também ele erra.
Quando cresce, um filho não se torna parecido com os pais, ele se torna parecido com o superego dos pais. Esquecerá as traquinagens que aprontou e punirá seus filhos por essas mesmas traquinagens. Não perdoará, porque perdoado não foi. Não se mostrará sem o escudo protetor. Perpetuará a espécie dos super-heróis. Não fará o luto dos pais da infância, nem permitirá que seus filhos o façam.
E será infeliz.
O que você está sendo para seu filho? Um super-herói imortal? Ou um ser humano que deseja morrer para seu filho criança e renascer verdadeiro para seu filho adulto?
O tempo é agora: a adolescência, lembre-se, chega cada vez mais cedo.
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