Pular para o conteúdo principal

DIZ-ME ONDE TE DESCREVEM E TE DIREI QUEM ÉS

 TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL

Um dos maiores obstáculos, senão o maior, para a compreensão do que é autismo e, consequentemente, para a inclusão é o Manual Estatístico e Diagnóstico das Doenças Mentais - DSM. A última edição do manual, o DSM-V conseguiu inclusive piorar o que já era ruim. Não por acaso, com menos de um ano nas bancas, já está sofrendo revisões por parte de alguns psiquiatras americanos, que não aceitaram de boa vontade a ideia do TEA, um grande espectro que aglutina o que eles chamam de "todos os tipos de autismo".
É como se, já que não sei o que é esse trem, eu decida que cada autista, em sendo diferente dos outros, tem um tipo diferente de autismo, causado por um tipo diferente de fator.
Imagine, por exemplo, um Transtorno das Doenças das Vias Respiratórias, que juntasse num só pote todas as doenças que têm sintomas semelhantes. Ou um Transtorno da Doenças Terminadas em Ite, ou Transtornos do Espectro do Câncer, e verá a confusão.
O dano começa já na semente: o fato do autismo constar num manual de doenças mentais já remete pais e escolas à compreensão de que o autismo é uma doença mental. Não há como pensar diferente. Só que não é e, a rigor, nem deveria estar lá.
O dano prossegue no significado: ao classificar o autismo como um grande espectro, elimina o maior fator de compreensão para a elaboração de intervenções, a singularidade de cada pessoa. Ora, se eu, tu e ele estamos sob a denominação de um mesmo transtorno, obrigatoriamente tem que haver semelhanças entre nós que justifiquem intervenções semelhantes. Dessa forma, pra que PDI? Leio o manual, vejo quais são as características comuns e mando bala.
Finalmente, o DSM tira de pais e professores a mais rica de todas as compreensões: a de que o autismo é um transtorno do desenvolvimento infantil, e que as intervenções corretas e necessárias são aquelas que trabalham as áreas do desenvolvimento que são deficitárias em cada criança.
Dessa forma, quando você leva seu filho ao psiquiatra (porque o DSM diz que é doença mental, área da psiquiatria), volta com um diagnóstico e um pedido de intervenções padronizadas, como se houvesse um carimbo. Busca profissionais e começa a "tratar" seu filho de coisas que talvez nem precisasse, enquanto outros déficits deixam de ser trabalhados.
Se nos dispuséssemos a ler com cuidado a Classificação Internacional de Doenças - CID 10, veríamos, surpresos, que o autismo é um dos Transtornos Globais do Desenvolvimento. Entenderíamos as diferenças entres os diversos transtornos do desenvolvimento, como Heller ou Ret (inclusive obtendo subsídios contra "pesquisadores" que confundem uns e outros), e descobriríamos mais facilmente o eixo do desenvolvimento que precisa de maiores intervenções.
No livro O Dom do Autismo reproduzo um quadro comparativo onde demonstro como é o desenvolvimento infantil típico, uma média de todas as crianças segundo a pediatria, a psicologia e a pedagogia. Mostro esse quadro em palestras. É impressionante como as pessoas têm duas reações: 1 - nunca tinha visto ou pensado nisso; 2 - caraca, como é fácil!
Mas, para ser fácil, você precisa parar de se basear no DSM e seu TEA e se debruçar sobre o CID e seu TGD.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia