Texto de Manuel Vazquez Gil
Sujeito de sorte, estive reunido com praticamente todos os professores, da rede estadual e da municipal, de Piedade do Rio Grande, uma enorme cidadezinha que cabe no bolso e que roubou minha alma.
A essa turma bonita e generosa falei sobre inclusão sob o ponto de vista dos direitos humanos e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Raramente consegui tanta atenção para uma filosofia que é estranha à maioria, mas que, no entanto, é a única que dá resultados: a inclusão é o resultado dos esforços coletivos em remover obstáculos, e cabe à escola o papel principal nesse esforço.
Ou seja: incluir não é encher um estudante de tarefas, intervenções e adultos em volta para que ele possa superar suas dificuldades; incluir é detectar os obstáculos que impedem ou dificultam esse estudante de caminhar ao lado dos seus colegas e, com a ajuda deste últimos, remove-los. Depois, deixar que o próprio estudante escolha as estradas por onde pode seguir.
Ou seja: ninguém inclui ninguém, a pessoa mesma se inclui quando encontra um ambiente agradável.
Mais do que falar sobre métodos de inclusão, Silvania e eu desconstruímos conceitos aninhados ano após ano por pessoas que priorizam a superação, o trabalho contínuo sobre o estudante com deficiência, atuando sobre suas dificuldades. Nós atuamos sobre suas capacidades, apontamos as qualidades que podem leva-lo ao patamar da média dos seus colegas. Para nós, a deficiência não tem a mínima importância, o que nos move é a pessoa, o potencial daquela pessoa, as características daquela pessoa que podem agregar saber ao grupo todo.
No final da palestra, dei o conselho que pode facilitar e mudar toda uma classe: tire o controle, deixe que seus alunos controlem o tempo e o tema, acredite na capacidade deles de se controlar, e colherá frutos maravilhosos. Eles aprendem uns com os outros, e se esse aprendizado não acontece é porque algum adulto está impedindo, está no controle.
Escola é o lugar, por excelência, onde a criança aprende autonomia. Só será autônoma aquela a quem for dado o controle sobre si mesma. Esse conselho, aliás, também dou para a família.
Registro aqui um acontecimento/surpresa, que gravei na mente com extremo carinho: pela primeira vez nesta vida longa, tomei café com goiaba, tiradinha do pé momentos antes. Recomendo, já fiz de rotina na volta pra casa.
Aos professores desta querida cidade, meu muito obrigado. Vocês são fantásticos. Volto pra vocês a qualquer momento, para concluir o papo delicioso.
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