Por Manuel Vazquez Gil
Mais do que um sujeito que vive dentro de escolas todos os dias, tenho idade suficiente para observar o caminhar da inclusão. Embora reconheça a importância e gravidade de acontecimentos pessoais e particulares, busco olhar para a curva histórica que atesta o sucesso menor ou maior desse movimento.
Ou seja: tenho consciência de que a inclusão não é um fato isolado, voltada para o meu filho, mas um projeto coletivo que deve beneficiar a todos. E quando digo todos, digo todos mesmo, e não só os alunos com deficiência.
Historicamente, a velocidade que se imprimiu à inclusão escolar é admirável: cinco décadas atrás, quando eu estudava, crianças com deficiência ou transtornos da aprendizagem nem ficavam na escola; faz menos de trinta anos que eu ajudei a fechar um manicômio em Santos e transportei autistas de volta pra casa; na virada do século sequer havia leis que obrigassem as escolas a aceitar esses alunos; em 2007 havia pouco mais de 300.000 alunos com deficiências nas escolas deste país; no começo do ano que vem, oito anos depois, serão mais de um milhão.
E mesmo assim ainda faltarão muitos, e haverá exceções. Mais de 120 anos depois da lei Áurea, ainda há gente escravizada; o Estatuto da Criança e do Adolescente já fez 25 anos e ainda tem criança que sofre castigos físicos e psicológicos; a mulher tem direito ao voto desde 1932, mas ainda é minoria absoluta nos cargos eletivos; a Constituição é de 1988, mas ainda viceja a homofobia, o racismo e o preconceito social.
Sempre haverá exceções, e críticas sempre serão bem-vindas. Mas é preciso olhar também para a curva. Não olhar apenas os pecados, mas a fé que nos anima, ensinou Jesus.
Nessa caminhada pela inclusão, a escola pública saltou na frente. Por diversos motivos: porque tem os professores mais capacitados; porque as políticas públicas apontam nessa direção; porque os alunos são todos do mesmo bairro, as famílias se conhecem e as crianças também; porque o investimento público nessas crianças é significativo. Deve haver mais motivos, mas esses bastam.
Conto uma breve história para exemplificar: o Domingos Belém é uma escola municipal em Contagem, MG. Neste ano de 2015, adotou o Aprendendo a Aprender em sua integralidade. Ao final do primeiro semestre, todas as crianças da escola estavam incluídas, e o segundo semestre foi dedicado à melhora do desempenho geral. A comunidade invadiu a escola, e inúmeros eventos sociais tomaram conta do planejamento: teatro, passeios, orquestra sinfônica, projetos culturais, esportivos, um mar de eventos que incrementaram a cultura geral. Tínhamos 13 auxiliares para 13 alunos com deficiência. Continuamos com os 13 alunos, mas reduzimos o número de auxiliares para 4. A retirada dos auxiliares foi um pedido dos próprios alunos (já contei aqui a história do Natã, como exemplo), e compreendida integralmente pelos professores e pelas famílias, com exceção de uma. Como falei, exceções sempre existirão, é o que confirma a regra.
Pois no mês passado fomos surpreendidos com a visita de oito mulheres. Elas têm os filhos numa escola particular da região. Foram conhecer o Belém porque ouviram falar da sua excelência, e gostaram do que viram. Decidiram matricular seus filhos lá no ano que vem. Todos vão para o sexto ano do ensino fundamental, todos serão nossos meninos em 2016.
Detalhe 1: uma das crianças tem dificuldades de aprendizagem, provavelmente ligado à memória recente, e a escola não consegue dar conta disso.
Detalhe 2: a mãe desse menino é a proprietária da escola.
Se até a escola particular consegue ver o protagonismo da escola pública, por que você não?
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