Texto de Manuel Vazquez Gil
Natã é um lindo menino da Escola Municipal Domingos Belém, em Contagem. Filho da doce Ana Paula, a quem tenho o orgulho de conhecer pessoalmente e o prazer de abraçar sempre que nos encontramos, é autista severo. Está há 3 anos na escola, e o termo "está na escola" nunca se aplicou tão bem: ele não ficava na sala de aula, explorava todos os espaços e ficava nervoso quando contido. Reagia com força às contenções.
Nunca desistimos dele, para nós ele é um aluno como tantos outros, com os mesmos direitos de ir e vir. Para a missão de socialização do Natã pedimos a colaboração de todos, principalmente dos seus colegas, e eles jamais recusaram, Natã é um deles e não seria abandonado.
E contamos com a compreensão e a confiança da mãe no nosso projeto.
Pois Natã foi crescendo e se desenvolvendo, acreditando aos poucos que seu lugar era ali, que era aceito e querido, que não havia diferenças de tratamento em relação aos demais colegas, e retribuiu. Quebrou a casca do ovo e se apresentou, inteligente e lindo, pronto para aprender. Para emocionar a todos, começou a falar e se posicionar no mundo. Demonstrou que percebia o outro e ouvia o que se passava em volta ao soltar um sonoro "boceta" no meio do páteo.
A diferença fundamental do projeto Aprendendo a Aprender é que seguimos o que nos disse a Convenção: nada sobre eles sem eles! Ouvimos os pais, os educadores, mas, principalmente, ouvimos a criança. Natã é o nosso cliente, e é ele que vai nos guiar. Muitas vezes criamos choques com pais, e algumas vezes com educadores, mas o nosso lema é o nada sobre eles sem eles.
Pois não é que Natã decidiu expulsar a auxiliar da sala de aula? Pega-a pela mão, coloca-a no corredor, volta e fecha a porta. Um grito de liberdade, de "quero conviver com estes meus amigos que tanto fizeram por mim, que tanto me acolheram, que tanto acreditaram no meu potencial". E ultimamente tem feito isso também com a mãe: ao chegar à escola, empurra-a para fora e sai, feliz e ligeiro, para se misturar aos seus iguais. É como se dissesse "mãe, esta é a minha escola, estes são meus amigos, vem me buscar na hora da saída". A mãe sorri e se emociona, feliz da vida por ser expulsa.
Ana Paula contou essa história no evento que coordenei e que publiquei logo abaixo. História que nós vivemos todos os dias com esse menino incrível que sabe que é ouvido e é atendido.
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Um dos mais estranhos costumes sociais que conservamos ainda hoje é achar que somos proprietários dos nossos filhos e que é a nossa vontade que deve prevalecer. Raramente paramos para ouvi-los, e raramente levamos em conta suas reivindicações. Ainda pensamos que somos nós, os pais, os clientes da escola, do médico, do psicólogo. Só que não somos, eles é que são, e eles têm voz. É o dever da escola, do médico, do psicólogo ouvir o que têm a dizer, é da vida deles que se trata.
Nós tivemos a sensibilidade de ouvir o Natã numa época em que sequer falava. Sabendo-se ouvido, ele nos demonstrou o caminho que deseja seguir, e nós atendemos.
Natã nos mostra todos os dias quais são os obstáculos que obstruem seu caminho, e nós os removemos. Ele é nosso cliente e é nosso guia. Sua mãe compreende, apoia e acredita. Quando se reúne comigo, seu grandes olhos se enchem de água e me agradece. Deveria agradecer ao Natã, ele é o cara.
No ano que vem Natã aprenderá a ler e escrever, e eu acredito que ele já sabe, só não quer ainda mostrar. Ele é um tesouro, e tesouro se mostra aos poucos, sem pressa, para que tenhamos tempo para apreciar. Autistas severos como Luan e Natã já vi aos montes, meninos que se abrem para o mundo e se tornam referências na classe, na escola e na vida. Para que façam isso, existe um caminho, e esse caminho é conhecido.
É pena que muitas pessoas não entendam que o "nada sobre nós sem nós" é, na verdade, o "nada sobre eles sem eles".
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