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Catacrese

Texto de Manuel Vazquez Gil
Se você tem tido a paciência de me seguir aqui, e se acredita minimamente no que lhe digo, é certo que já tenha descoberto qual é o seu terço dominante: Édipo, Narciso ou Procusto. Espero que, descobrindo, esteja fazendo alguma coisa para reequilibrar sua balança.
Pertencemos a uma geração bombardeada por conceitos behavioristas, e a psicologia comportamental tomou conta de todas as áreas do conhecimento. Dessa forma, acreditamos, sem questionar, que tudo se resume ao modelo de estímulo-resposta: para cada ação que recebemos corresponde uma reação que emitimos. Como psicólogos comportamentais forçam a barra e dizem que essa área é a única científica, e como acreditamos em tudo o que é científico, solidificamos esse modelo.
Mas pense: você só acredita nesse modelo porque solidificou a crença de que é verdadeiro. Ou seja: não é a descrição do modelo que faz você crer, é a sua crença de que ele é bom. Dessa forma, o modelo já não vale mais, porque sua reação é modulada pela sua crença, e não pelo estímulo inicial. Se a sua crença fosse outra, o modelo não serviria.
Não importa de onde você veio, pra onde vai ou quem você é, há sempre três tipos de crenças:
1 – você deve fazer as coisas certas e ganhar a aprovação dos outros, ou então você não é bom. Essa crença causa ansiedade, culpa, depressão, vergonha;
2 – as outras pessoas devem tratar você bem, de forma justa e da forma que você gostaria de ser tratado, ou então as outras pessoas não são boas; Essa crença causa raiva, auto punição, violência;
3 – você deve conseguir o que quer e merece, e não deve obter o que não quer ou não merece. Caso não consiga o que quer, ou consiga o que não quer, você não suporta e se frustra. Essa crença causa sentimento de pena de si mesmo e procrastinação.
Sei que você reconheceu, pela ordem, Édipo, Narciso e Procusto.
Como você se frustra, aborrece, deprime, procrastina em função da crença que domina seu ser, mudar o estímulo pode não surtir nenhum efeito, se você não mudar sua crença principal. Pra fazer isso, vai ter que trabalhar duro e aceitar a realidade como ela é. Para isso, você precisa dar três passos o mais depressa possível:
1 – você precisa domar seu Narciso, aceitar que é falho e que seu valor não é maior nem menor do que o de ninguém;
2 – você precisa domar seu Procusto, aceitar que às vezes será tratado injustamente, que você não é tão especial que tenha que ser sempre tratado com justiça e que o outro não é maior nem menor do que ninguém;
3 – você precisa domar seu Édipo, aceitar que a vida quase nunca funciona dentro dos planos traçados, que a vida, mesmo não sendo do jeito que você esperava permite que você se liberte das amarras e veja o lado bom de ser livre, autônomo e adulto.
(obs.: catacrese: figura literária de palavra, representa o empréstimo de um termo por falta de outro que, devido ao uso constante, não nos apercebemos que é empregado em sentido figurado, como em “pé de mesa”, “braço de mar”, ou nos nomes que você dá às suas crenças para que não pareçam crenças).

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