Pular para o conteúdo principal

A PERSONALIDADE E O CARÁTER

Texto de Manuel Vázquez Gil
Embora pareçam sinônimos, esses dois termos não se confundem e precisam ser compreendidos: 
a) Personalidade deriva do latim “personare”, junção de “per” (através de) + “sonare” (soar), e fazia referência às máscaras que os atores de teatro usavam e que, ao mesmo tempo em que escondiam suas identidades para que pudessem interpretar vários papeis (em especial o de mulheres, que eram proibidas de atuar), também aumentavam o volume da voz, daí o nome. Modernamente, personalidade diz respeito à individualidade de uma pessoa, aquilo que a distingue de outras.
b) Caráter, do grego “karakter”, significa, etimologicamente, “marca gravada, sulcada”. Deriva de “kharax”, instrumento pontiagudo usado para gravar marcas em objetos diversos. Caráter, então, é o conjunto de qualidades, boas ou más, que identificam o comportamento moral de um sujeito ou um grupo de sujeitos, e que estão gravadas na sua personalidade.
Assim, embora a personalidade esteja pronta aproximadamente aos oito anos de idade, o caráter continua sendo moldado por praticamente toda a vida, embora seja desejável que esteja estável no fim da adolescência. Como costumo falar, o que importa é como se encaminham a criança e o adolescente, porque a personalidade sádica está tão presente no assassino cruel quanto grade cirurgião.
Existem nove tipos de caráteres, todos com prós e contras, mas há os que se adequam melhor à vida em comunidade, que é a que praticamos hoje. Aproveite o domingo prolongado e descubra o seu:
1 – Perfeccionista: acha que o dever é mais importante do que o prazer, e que os instintos naturais têm que ser controlados. Noções de bondade, solidariedade e correção são autoritárias exatamente porque têm que ser perfeitas.
2 – Falso amor: para estes, o amor justifica tudo, a emoção é mais forte do que o pensamento, a pessoa se sente especial e merecedora de privilégios e atenções. Manipuladoras, as pessoas deste item acham que o outro não conseguiria viver sem elas (o que será dele se eu morrer?).
3 – Engano: estas pessoas têm a impressão de que todo mundo finge, e que o mundo é um enorme teatro. Pensando desta maneira, concluem que o fingimento é o caminho para o sucesso. Dessa maneira, escondem seus verdadeiros sentimentos, e pensam que ninguém os aceitaria se não fossem úteis.
4 – Inveja: supõem, erroneamente, que não são tão bons quanto os outros, e isso causa a sensação de que a vida lhes deve uma compensação. Estas pessoas acreditam que, revisando o passado, conseguem muda-lo. Idealizam o sofrimento (quanto mais sofro, mais nobre eu sou).
5 – Avareza – dirigem-se pelo princípio da economia: é melhor guardar minha energia para amanhã do que gasta-la com relacionamentos hoje. Antes precisar de pouco, portanto sonhar baixo, para não se arriscar a depender do outro. Melhor ficar sozinho, quanto menores forem os compromissos maior a possibilidade de liberdade e felicidade.
6 – Medo – sensação de que não é capaz de vencer com os próprios recursos, são autoritários por necessidade de segurança pessoal. Não consegue confiar no outro, e duvida das próprias sensações e intuições. Embora valorize a autoridade, não a vê necessariamente como uma coisa boa.
7 – Gula – otimistas, as pessoas deste item acham que estão bem e todo mundo também está bem. Sentem a autoridade como uma coisa má, nada é proibido para quem tem talento, e a melhor maneira de vencer é através do charme pessoal.
8 – Luxúria – acreditam que é preciso arriscar para vencer, e que a vida é uma eterna luta entre fortes e fracos, onde os primeiros sempre vencem. Dá valor excessivo à auto-suficiência e abomina a dependência. Nessa luta, é válido causar sofrimento ao outro, já que quando era fraco também sofria. Se querem alguma coisa, pegam, não importa o que esteja no caminho. Acham que a virtude é uma hipocrisia e que as regras sociais são obstáculos, devendo agir pelos impulsos.
9 – Indolência – adaptáveis por natureza, pessoas deste item dirigem suas energias para a solução de conflitos. Melhor não pensar demais, para evitar sofrimentos. Na tentativa de evitar o conflito, preferem conformar-se e apoiar ideologias conservadoras. Acredita que não é bom ser egoísta, e que é melhor compreender (e muitas vezes submeter-se) às necessidades do outro. Seu lema é: não ponha em risco a harmonia.
Divirta-se, faça o desenho do seu caráter, a vida está cheia de kharax para permitir novos sulcos na sua alma. Sua personalidade e as pessoas próximas a você agradecem.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia