TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Oficialmente, o autismo ainda é um dos TGDs, agrupados no CID sob o código F84, onde o F84.0 é o Autismo Infantil.
Acompanhe comigo o que o manual fala sobre TGDs:
“Grupo de transtornos caracterizados por alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e modalidades de comunicação e por um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Estas anomalias qualitativas constituem uma característica global do funcionamento do sujeito, em todas as ocasiões”.
Os TGDs estão divididos nas seguintes classificações:
F84.0 AUTISMO INFANTIL
F84.2 SÍNDROME DE RETT
F84.3 OUTRO TRANSTORNO DESINTEGRATIVO DA INFÂNCIA
F84.4 TRANSTORNO COM HIPERCINESIA ASSOCIADA A RETARDO MENTAL E A MOVIMENTOS ESTEREOTIPADOS
F84.5 SÍNDROME DE ASPERGER
F84.8 OUTROS TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO
F84.9 TRANSTORNOS GLOBAIS NÃO ESPECIFICADOS DO DESENVOLVIMENTO
Desses, interessa-nos o F84.0, Autismo Infantil. O CID descreve-o assim:
“Transtorno global do desenvolvimento caracterizado por a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos, e b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade (auto-agressividade)”.
Segue uma longa lista de sintomas, epidemiologia, e critérios diagnósticos de interesse de médicos e psicólogos, e conclui com um pequeno lembrete sempre esquecido pelos interessados: “c - A perturbação não é melhor explicada por Transtorno de Rett ou Transtorno Desintegrativo da Infância”.
Toda essa introdução é para familiarizar você com a ideia de Transtorno Global do Desenvolvimento e com o Autismo dentro dessa classificação, como um dos transtornos, mas não o único. Também para confirmar o que alguns negam, que Rett e Heller (o tal Transtorno Desintegrativo da Infância), não são autismo, e os estudo genéticos desenvolvidos com esses sujeitos não se aplicam ao sujeito autista.
Também para explicar o raciocínio que desenvolvo: se o autismo é um TGD, e se esse transtorno afeta os três eixos do desenvolvimento infantil, precisamos conhecer a curva média do desenvolvimento típico e, a partir desse conhecimento, agir apenas e tão somente no vetor necessário para possibilitar o desenvolvimento da criança autista.
Em outras palavras: não se leva a criança à fonoaudióloga porque é autista, mas porque tem dificuldades com a fala ou a comunicação; não se leva a criança à psicóloga porque é autista, mas porque tem dificuldades de conter frustrações; não se leva a criança à Terapeuta Ocupacional porque é autista, mas porque não consegue dominar as atividades da vida diária. Ou seja: nunca é por causa do autismo, que por si só não justifica nem terapias nem medicamentos.
E se reconhecermos que um transtorno é uma alteração qualitativa nas relações humanas, veremos que todos nós, sem exceção, já ficamos transtornados em algum tempo, em alguma situação. E que esses nossos transtornos duraram mais ou menos tempo, a depender da nossa reação e do ambiente que encontramos após o evento. Se nos forneceram um ambiente propício, livramo-nos do transtorno rapidamente e voltamos a interagir com a qualidade exigida; se o ambiente se mantiver hostil, transtornados também nos mantemos.
Então, apenas como exercício, proponho que deixe um pouco de lado a ideia de Transtorno do Espectro Autista e venha comigo visitas os Transtornos Globais do Desenvolvimento. Primeiro, porque o primeiro classifica, mas não explica. Depois, porque o segundo, além de explicar, dá a oportunidade de traçar paralelos com outros TGDs, mostra que não estamos sozinhos e que, em sendo um transtorno de desenvolvimento, basta promover o desenvolvimento para reduzir os efeitos ruins do transtorno.
Além de, como sempre falo e está explicadinho no livro O Dom do Autismo, a deficiência não está no autista, mas no ambiente. E nossa energia precisa se voltar, definitivamente, à mudança do ambiente, não do autista.
Prometi falar sobre as três janelas, mas não dei ainda, desculpem, precisava desta introdução.
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