TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
O DSM é uma manual específico das doenças mentais. A rigor, autismo não deveria constar de um manual psiquiátrico: o desenvolvimento infantil e seus eventuais desvios são típicos da área da pediatria. A respeito disso, sempre comparo Kanner, um psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos e Asperger, um pediatra austríaco que se manteve em casa.
A pergunta que faço é esta: esses dois médicos nasceram na mesma região da Áustria, eram contemporâneos, tinham o mesmo nível socio-econômico, estudaram na mesma Universidade e foram discípulos das ideias de Bleuler, tanto que, sem poderem se comunicar ou saber o que o outro fazia, deram o nome de "autistas" a alguns dos seus pacientes. Por que os autistas de Kanner e de Asperger eram tão diferentes, a ponto de surgir a denominação "Síndrome de Asperger" aos autistas mais autônomos e brilhantes? Haveria, nos Estados Unidos, apenas autistas clássicos, e na Europa apenas aspies? Ou teria a ver com as intervenções de cada um deles?
Um dica: Kanner tinha um consultório psiquiátrico em Nova Iorque; Asperger dirigia um tal de Estação Ludoterápica do Autismo, num hospital de Viena.
Pediatras conhecem as curvas do desenvolvimento. Aliás, com maior ou menor profundidade, mães e professores também. Se concordarmos que autismo não é uma doença mental e deixarmos as noções psiquiátricas um pouco de lado, e olharmos para ele como um transtorno do desenvolvimento, conseguiremos observar as três grandes janelas desse desenvolvimento infantil:
1 - por volta dos 4 anos, e nunca antes disso, os oligodendrócitos começam a construir a bainha de mielina em torno dos axônios neuronais. Significa que apenas a partir dessa idade os neurônios ganham proteção contra quebras acidentais e velocidade exigida pelo aprendizado. Antes disso, neurônios estão desprotegidos, e o excesso de estímulos provoca perdas irrecuperáveis. Ou seja: até os 4 anos, a criança tem que viver ludicamente, sem ser pressionada por excesso de intervenções externas. Numa sociedade justa, nenhuma criança deveria estar na escola antes dos 4 anos, e nenhuma deveria estar fora dela depois dos 5.
2 - em torno dos 8 anos, o sistema nervoso central atinge seu formato adulto. A partir daí, o cérebro vai crescer mais devagar porque todo o conhecimento que já adquiriu (mesmo que não consiga demonstrar) é o suficiente como base para todos os que irão chegar pelo resto da vida.
3 - aproximadamente aos 12 anos, com a chegada da puberdade, o cérebro completa a representação do corpo na mente, com movimentos harmonizados. A criança deixa de ser criança e entra na vida adulta, sob o ponto de vista fisiológico. A partir dessa idade, o sujeito está pronto para todas as atividades típicas de um adulto.
Conhecer essa divisão nos dá segurança para compreender que a faixa etária do nascimento até os 4 anos é a fase do aprender brincando, construir relações parentais, adquirir os pressupostos básicos de coordenação motora para o futuro aprendizado formal. Mas nunca, jamais, o período de intervenções em excesso ou de tentativas de alfabetização: os axônios quebrados, sem a proteção da bainha de mielina, jamais se refaz e a simples quebra de um deles põe a perder toda uma vasta rede.
Também compreenderemos que a faixa dos 4/5 aos 7/8 é crucial para o início dos aprendizados e o preparo para o que Piaget chamou de Operações Formais. É a idade das compreensões de regras sociais e da reversibilidade, que prepara o sujeito para o ensino da matemática e das regras gramaticais.
Entre os 7/8 e os 12 anos, fase que Freud chamou de Latência, toda a energia se concentra no aprendizado formal. É a faixa de idade correta para a escola e o aprendizado formal, porque o cérebro já está adulto, mas ainda não é a idade ideal para a prática de esportes competitivos, porque o corpo representado na mente ainda não tem movimentos, e esse detalhe faz com que a incidência de acidentes seja potencializada.
Finalmente, após os 12 anos, temos um adulto, e o papo muda radicalmente. Muda, claro, quando percebemos que já não temos mais uma criança em casa e passamos a tratar o sujeito como um adulto.
A compreensão desse quadro, entretanto, exige que se pense o autismo como um dos TGDs. A classificação do autismo como um TEA, da área da psiquiatria, não permite esse olhar. Como criamos dependência do modelo americano, e não percebemos que esse modelo não demonstrou qualquer eficiência, não vemos o autista como uma criança que apresenta um desenvolvimento infantil atípico, mas sim como um paciente psiquiátrico, "portador" de uma doença incurável.
Talvez devêssemos olhar mais para a Europa e para Hans Asperger. Afinal, os meninos dele se desenvolviam muito bem, obrigado. O Dom do Autismo, aliás, coloca o dedo nessa ferida.
Voltaremos ao assunto.
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