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FIM DO ANO LETIVO: HORA DE PENSAR NOVAS ABORDAGENS PARA 2015

HORA DE PENSAR: o que fizemos em 2014? é possível continuar? o que podemos mudar? incluímos ou excluímos com nosso processo de avaliação?
Trabalharemos com alguns textos que tratam desses assuntos.
Bora ler e pensar:


MINHA ESCOLA

Manuel Vazquez Gil

A escola brasileira atual é a melhor que já tivemos, desde a primeira, fundada por José de Anchieta aqui na minha São Vicente, onde hoje fica a Rua do Colégio (morei lá por vinte anos, até que o divórcio me devolvesse às origens do Catiapoã).
Em nenhum outro período histórico houve tantas crianças e adolescentes na escola, tantas pessoas com deficiência frequentando aulas e tantos professores com capacitação pedagógica de nível superior e de pós-graduações. Em compensação, em nenhum outro período houve tantas pessoas esclarecidas e críticas, exigindo mais da escola, mas, paradoxalmente, dedicando-se cada vez menos à vida escolar dos filhos.
Coisas da vida moderna, que nos tirou do cotidiano pacato e nos lançou no jogo altamente competitivo do mercado e do consumismo.
Quando chega o fim de ano essas minhas crenças (que são constatações de alguém que está na escola desde 1958, tem memória e gosta de justiça) ficam um pouquinho abaladas com situações de retenções de alunos por baixa produtividade. Daí estes pitacos ousados que quero deixar aqui, fruto de conversas e discussões com a escola antes dos famigerados conselhos de classe:
1 - Crianças não têm antecedentes criminais. Mesmo no nosso ordenamento jurídico, infratores menores têm a ficha zerada quando atingem a maioridade. Uma criança não pode ser retida em função de uma nota baixa muitos e muitos meses atrás, o que tem que contar é a curva evolutiva, o momento atual, e não a média histórica: média não serve para nada, a não ser para estatística. Histórico escolar não deveria existir, por ser inconstitucional e por ferir o princípio científico da plasticidade cerebral.
2 - As situações de estudantes que chegam ao conselho são produzidas por uma conjunção de avaliações bimestrais + a visão deturpada que temos de avaliações. Uma prova deve ser vista como o início de um processo, onde o professor identifica as deficiências do estudante e estabelece um programa futuro de sana-las, e não como uma simples aferição. O que ocorre é que a avaliação bimestral encerra um ciclo de conteúdos e no dia seguinte começa-se outro conteúdo. Claro que é ineficiente, as lacunas evidenciadas pela avaliação vão seguir sendo lacunas, e vão dificultar aquisições futuras.
3 - A família não participa do processo escolar, através dos instrumentos disponibilizados pela escola, como lições de casa ou trabalhos. Claro que pais não devem fazer as tarefas para os filhos, e que devem deixar que o professor perceba os erros que o estudante comete também nas tarefas levadas para casa, mas há maneiras de participar sem interferir, e um elemento psicológico forte que motiva a criança quando os pais se envolvem nas tarefas escolares.
Vou deixar uma dica valiosa, que tem mudado a vida de muitas crianças para melhor, tanto na escola quanto em casa: crianças e adolescentes não gostam de estudar. Há vários motivos para isso, que podemos discutir futuramente, mas o mais forte deles é o que chamo de falta de Scholé, a clássica definição grega de que escola tem que ser um tempo de lazer e prazer. Essa carência não é só culpa da escola, é nossa também (pense no poder de convencimento na cabeça de uma criança, da famosa frase que repetimos "enfim férias!", como se a escola fosse um suplício interminável).
Mas vamos à dica, que acabei me perdendo: crianças não gostam de estudar, mas adoram ser professores. Há um fórmula simples que permite à família participar do processo escolar, ajudar o filho a gostar da escola e potencializar o aprendizado: faça do seu filho o professor, pelo menos uma vez por semana. Ele deve elaborar uma prova com o conteúdo que aprendeu e você deve responder as perguntas. Depois ele fará a correção (é permitido, para a correção, consultar livros e cadernos, professor também consulta) e lhe dará uma nota. Elabore um boletim. Uma vez por mês, ele deve lhe pedir um trabalho, com tema escolhido por ele, e deverá também fazer a correção, somar a nota ao da prova e dar sua média final.
Se em seis meses seu filho não tiver melhorado o desempenho na escola, volte aqui e me cobre, não tenho nenhum escrúpulo em fazer um mea culpa. Adianto que, para as famílias que seguiram o processo com disciplina (lembre-se que, como aluno, você deve seguir as regras que seu filho segue na escola) sempre colheram frutos.
Repetindo: a escola atual é a melhor que já tivemos. Faltam alguns detalhes: engajamento das famílias, mudanças de alguns paradigmas e, principalmente, liberdade para criar. Liberdade que eu tenho, mas eu não conto: já sou velho e experiente o suficiente para me permitir pensar, errar, corrigir e sugerir.
Boa sorte.

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