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AUTISMO E RITUAIS 2

AUTISMO E RITUAIS - 2
(para meu colega Felipe Augusto Wanderley, com admiração, via Asperger e Autismo no Brasil).


TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Meu colega Felipe, jovem mestre de futuro brilhante, após a publicação do meu texto sobre rituais, dias atrás, pondera que é uma pena que eu demonstre “aversão ao tratamento ABA, que assim como os demais tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento do sujeito, ampliando suas interações com o mundo, a partir de um método mais sistemático e científico”. Em respeito a todos, mas principalmente a ele, preciso explicar.
O ABA é um sistema que originalmente prevê um terapeuta/uma criança. É um programa intenso, onde o terapeuta passa o dia com a criança e desenvolve treinamentos para modulação de comportamentos sociais, onde um dos pontos observados é a extinção de rituais.
O sistema tem dois pontos frágeis, com relação à execução: 1 – há, no Brasil, estatisticamente, aproximadamente 200 autistas para cada psicólogo; 2 – o processo é muito oneroso para o nível de vida das famílias brasileiras. Para mitigar esses obstáculos, algumas pessoas passaram a capacitar leigos. Dessa forma, um pai de autista que fizer o curso ABA pode aplicá-lo no seu filho.
O Dom do Autismo é um projeto que acredita que rituais são necessários para treinamento de coordenações básicas e para redução do estresse, e que acredita na força dos papéis, como foi explanado no texto. Filosoficamente, opõe-se aos sistemas behavioristas, do qual o ABA é um dos expoentes. Não há como compatibilizar ABA e Dom do Autismo.
Significa, Felipe, que eu acho o ABA um sistema eficiente para extinguir rituais, e por isso afirmei que não é bom. Sei que me entende, mas desejo me estender.
Rituais são sintomas visíveis de um desconforto ou uma necessidade interna. O ritual não é o desconforto, mas apenas a demonstração visível. Pense numa febre: ela não é a doença, mas um sinal de alerta de que algo vai mal lá dentro. Um dos dogmas da medicina, e também da psicologia, embora com menos rigor é que não se deve atacar o sintoma, mas a causa. Tem uma lógica contundente nisso: imagine que seu filho amanheça febril e você o leve ao médico. Lá, o profissional diagnostica “febre” e receita um remédio. Ora, febre pode representar o sintoma de inúmeras doenças (pense em algumas: gripe, resfriado, dengue, meningite, infecção intestinal, apendicite, câncer, e até motivos psicológicos). Um anti-febril não serve para todas elas, e é contra-indicado para muitas.
Ocorre o mesmo no autismo e seus rituais: sem saber qual é a causa, não podemos atacar o sintoma. Talvez o sintoma, inclusive, esteja servindo para diminuir o desconforto ou a necessidade, assim como a febre não é apenas um alerta, mas um aumento da temperatura corporal para eliminar o invasor. Nenhum vírus conhecido resiste a 72 horas de 39º C.
Ao eliminar a febre, desligamos o alerta e liberamos o invasor para suas ações maléficas. Ao extinguir o ritual, desligamos o alerta e perdemos a referência do incômodo interior. É minha opinião, embasada por anos de observação, de que o ritual não incomoda o autista, mas a família, e que é à família, e não ao seu cliente, que o terapeuta obedece.
Essa é, aliás, uma das críticas que faço: um terapeuta tem um contrato com o cliente, não com seus familiares, e é a ele, ao seu bem estar, que deve dirigir seu trabalho, sem admitir interferências de terceiros. Embora levante polêmicas, é um dos pilares da ética da profissão.
Como expliquei no texto, nessas duas décadas de atuação, percebi que o ritual é benéfico à criança, embora seja desconfortável para os pais. Tanto para a auto-regulação do humor e redução do estresse, quanto para o aprendizado formal e informal.´
Uma das características do autista é o que Asperger chamou de “clunsiness”, palavra alemã sem tradução, mas que significa aproximadamente “pessoa desengonçada”. É conhecida, por exemplo, a dificuldade que muitos autistas têm de andar de bicicleta. Essa dificuldade desaparece em autistas que tiveram seus rituais respeitados, acredito eu que pelos motivos que expus.
Não sou um crítico à Psicologia Comportamental, mergulhei nesse mar com gosto durante muito tempo, sou fã número 1 de Skinner e acho que é uma linha que funciona com perfeição em muitas áreas do comportamento humano. O ponto não é acreditar ou desacreditar. Se você está convicto de que rituais devem ser extintos, peça socorro ao Behaviorismo; se acha que rituais são benéficos, não use.
Quero deixar um último retoque, se me permite: psicologia não é ciência. Mesmo que apliquemos o método científico rigorosamente, qualquer área do conhecimento humano que se propõe a estudar e lidar com a mente humana, em especial com conteúdos inconscientes, não será ciência, porque não há como medir empiricamente os caminhos que um estímulo faz dentro do organismo humano, entre o estímulo e a reação. Não é argumento sólido usar o termo “científico” para justificar ações psicológicas. O Psicólogo é o único profissional, entre todos, que não tem ferramentas auxiliares na execução do seu trabalho, e depende unicamente do seu cabedal teórico e da sua sensibilidade. Sensibilidade e ciência não costumam andar de mãos dadas.
É isso que faz da Psicologia a área mais instigante de todas, e é por isso que estamos divergindo, felizmente. Preciso confessar-lhe: acredito mais na Psicologia do que na ciência.
Abraços. Felicidades na sua carreira e na sua vida.

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