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AUTISMO E RITUAIS

AUTISMO E RITUAIS
(para Andreia Isoppo, com carinho)

TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL


Leo Kanner e Hans Asperger nasceram e cresceram na mesma região austríaca, eram da mesma geração, de nível social semelhante e estudaram medicina na mesma Universidade, cuja caderia de Psiquiatria tinha como patrono Eugen Bleuler, antigo professor de Freud, Jung e Piaget, e o primeiro médico moderno a cunhar o termo “autismo”, no início do séc. XX.
Kanner escolheu ser pisquiatra e migrou para os Estados Unidos. Asperger foi ser pediatra e permaneceu na Áustria, chegando a servir alguns meses no exército nazista como médico. No meio da noite mais longa e tenebrosa da história da humanidade, e separados por alguns meses, ambos descreveram casos de crianças com um quadro de sintomas a que chamaram autismo, provavelmente influenciados por Bleuler.
Quando comecei a pesquisar sobre autismo, em 1994, por ocasião da inclusão da Síndrome de Asperger no DSM-IV, uma pergunta me assaltou: por que dois médicos com históricos tão semelhantes encontraram sujeitos tão radicalmente diferentes? Por que Kanner só encontrou autistas e Asperger só encontrou aspies? Como explicar esse fato?
Intuí que, se encontrasse a resposta, encontraria o caminho, e afundei na pesquisa. Consumi anos de leituras, contatos, teses, e noites de inquietação: não passou um dia sem que eu não acordasse com a pergunta atormentando minha mente, mas não desisti. Até que um dia a luzinha se acendeu.
Kanner era um reconhecido psiquiatra novaiorquino, que diagnosticava a criança e confortava os pais sobre o inevitável: nunca mais aquela criança seria alguém normal, não desenvolveria o social, talvez jamais falasse ou estabelecesse comunicação intelegível e não teria condições de aprender. Asperger era um pediatra que trabalhava num hospital onde a ala infantil tinha o sugestivo nome de “Estação Ludoterápica do Autismo”. Ele aconselhava a família, visitava-a regularmente, ajudava a escolher a escola, selecionava a professora, acompanhava a criança durante seu desenvolvimento e jamais desistia de nenhuma.
Acho que você, assim como eu, compreendeu a diferença. Arriscaria dizer que, se as crianças de Kanner fossem enviadas a Asperger, e vice-versa, a história não se alteraria: o primeiro só veria autistas, o segundo só aspies. Então construí o modelo do Dom do Autismo, que vigora até hoje e que se baseia em Asperger.
Um dos pontos fortes tem relação com os rituais, porque a base de tratamento derivada de Kanner é a extinção dos rituais, porque são considerados não funcionais, mas não é a base de Asperger, que os considera naturais. Vale acrescentar que o próprio Asperger era autista, e devia ter a experiência pessoal como referência teórica.
Ocorre que rituais não só são funcionais, como são necessários. Nossa lembrança foge, mas toda criança anda na ponta dos pés ou em círculos. São exercícios necessários à aquisição do sentido de equilíbrio. Como fazemos isso quando somos crianças pequenas, assustamo-nos com crianças grandes ainda executando esses movimentos. Isso se deve ao fato do autismo ser um transtorno do desenvolvimento global (desenvolvimento global: ações esperadas nos três eixos do desenvolvimento infantil, a saber: fala, social e motor, dentro de uma faixa de idade). Um transtorno não significa atraso, mas desenvolvimento fora da curva, tanto para mais quanto para menos. Enquanto a maioria das crianças desenvolve esses eixos dentro de uma curva de idade esperada, autistas não seguem a regra, e podem desenvolver um dos eixos antes do esperado, outro depois, ou todos eles depois. Então ele treina, como todos nós treinamos, apenas em idade fora da curva esperada.
Psicólogos comportamentais (fui um deles) especializaram-se em extinguir rituais. Treinos diários e constantes modulavam comportamentos no intuito de fazer a criança se parecer com os colegas normais (nunca uso aspas, porque o treinamento tem o intuito de normalizar a criança sem aspas, e as aspas, por si, já a deixaria diferente). Esse é o modelo que chamo de americano, que já completou 70 anos e que não conseguiu nenhum sucesso, a não ser aumentar o número oficial de autistas.
Programas foram criados sobre a extinção dos rituais, pessoas enriqueceram, formaram franquias mundiais, estabeleceram regras impossíveis de cumprir e construiram um mundo onde nunca se tem certeza se esses sistemas servem para solucionar o caso ou para aumentar a clientela. Porque, com tantas intervenções, não resta à criança outra alternativa do que se tornar autista. Tenho encontrado, aliás, casos e mais casos de crianças que regridem por execesso de intervenções, e que voltam a se desenvolver quando as intervenções diminuem.
No decorrer do tempo pude observar um fenômeno interessante: autistas que sofreram intervenções para extinguir rituais tornaram-se aparentemente mais parecidos com seus pares, mas encontram dificuldades no aprendizado formal; crianças que puderam executar seus rituais mantiveram-nos por mais tempo, às vezes até o fim da adolescência, mas encontram mais facilidades para o aprendizado formal. Qualquer professora de ensino infantil pode explicar isso: para que uma criança possa aprender a escrever e fazer contas, tem que dominar princípios básicos de coordenação. Coordenação ampla, fina, visuo-motora, percepção, imitação, equilíbrio. Os rituais autistas justamente servem para ampliar e refinar essas habilidades.
Se você não andou na ponta dos pés quando criança, não tem equilíbrio suficiente para andar na corda bamba. Se não deixa seu filho andar, ele não terá equilíbrio suficiente para aprender conceitos básicos na vida e na escola. Como diz nosso bom amigo Nietzche, só respondemos as perguntas que conhecemos. Como não sabemos para que servem rituais, melhor não conviver com eles.
Futuramente, amiga, cobre-me sobre como se forma o sentido do equilíbrio e do movimento, base neurológia do meu projeto, e como o desenvolvimento se acelera quando, em vez de tentar extinguir, imitamos os rituais.
Um abraço, feliz 2015. Não esqueça dos rituais de passagem: lentilha, sete ondas, roupa branca, essas coisas que é bom que psicólogos comportamentais não saibam que fazemos, senão...

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