Pular para o conteúdo principal

NEUROTÍPICOS



 TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Cristopher Gillberg é um renomado neurologista europeu especialista em autismo. Foi ele que, com Lorna Wing, descreveu os sintomas da Síndrome de Asperger em 1994. Gillberg tem um projeto longevo em que, em parceria com famílias e Universidades, disseca cérebros de autistas e não autistas. É dele a frase: "depois de três décadas dissecando milhares de cérebros, jamais encontrei dois iguais. Cheguei à conclusão que o normal é ser diferente".
A Aspie for Freedom é uma ONG internacional constituída e dirigida apenas por autistas. Defende o direito das pessoas de serem autistas e não serem submetidas a intervenções invasivas que buscam a cura ou a modificação da personalidade. Há algum tempo publicaram um texto divertido em que descrevem a Síndrome do Neurotípico, para contrapor-se aos propalados sintomas psiquiátricos da Síndrome do Autismo.
Queriam apenas demonstrar que todos têm manias e idiossincrasias que poderiam ser englobadas dentro de uma síndrome, e que autistas não fogem à regra. Mas os donos do mundo encontraram na denominação bem humorada um termo politicamente correto para acentuar as diferenças entre eles, os normais, e os outros, os autistas: nós somos neurotípicos, eles neuroatípicos. Surpreende que a ironia tenha vindo dos segundos, e que os primeiros tenham tomado ao pé da letra.
A espécie humana tem como regra básica e insubstituível a diversidade. Ser ou estar louco, negro, gay, autista, esquizofrênico, paraplégico, oligofrênico não tira da pessoa a humanidade e os direitos que ao simples nascer lhe são devidos. Não importa o termo que se use, quando eu digo que nós temos a maneira de pensar e agir neurotípica e os outros, os autistas, têm a forma de pensar e de agir neuroatípica, estou dizendo que nós somos os normais e eles não.
Não sei o que é neurotipia. Como Gillberg, em décadas de divã, ouvindo milhares de pessoas, jamais encontrei duas pessoas com formas de pensar e de agir iguais. E não sei porque somos nós, e não eles, os neurotípicos. Meu filho é autista e se você lhe perguntar se ele tem uma forma de pensar diferente ele lhe dirá que sim, mas que você também. Pra ele, autista é o cara que é bom de matemática mas ruim pra guardar nomes de pessoas, o que o coloca no cesto de outros milhões que não são autistas, mas têm as mesmas características.
Ah, a propaganda! Enfia-nos coisas goela abaixo, e lá vamos nós, espalhando aos ventos a nova nomenclatura. Há um prova viva de que não há neurotípicos: alguns autistas, que por essa divisão deveriam pensar diferente da maioria, também acreditam e disseminam esses dois nominhos discricionários e preconceituosos, e se acreditam neuroatípicos. Não são, se o fossem não concordariam com a maioria, os que se dizem normais.
Assim como uma mulher é uma mulher, um negro é um negro, um branco é um branco, um gay é um gay, um autista é um autista, são todos componentes da diversidade humana que Gillberg descreve como sendo a normalidade. Não consigo ver onde está a dificuldade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia