APRENDENDO
Manuel Vazquez Gil
Crianças não aprendem com o professor, crianças aprendem com outras crianças. Entre elas, há o mesmo nivelamento de linguagem e interesses, a mesma idade mental, a mesma fase de desenvolvimento. Um professor inteligente deixa que as crianças aprendam umas com as outras.
Isso é particularmente interessante no que diz respeito à inclusão: apenas crianças, que ainda não desenvolveram os preconceitos estruturais típicos de adultos, podem incluir outras crianças. Porque, para elas, não há diferenças, a menos que algum adulto as aponte.
Cabe ao professor criar um ambiente isento de preconceitos, organizado e livre, para potencializar o aprendizado e favorecer a inclusão. Mas não é papel dele apenas, também a família precisa colaborar, criando parceria saudável com a escola, sem críticas. Se algum assunto deve ser tratado, se alguma rusga deve ser sanada, se alguma pendência não foi resolvida, é uma conversa entre adultos da família e da escola: uma criança só aprende se a família garantir que a escola pode ensinar.
Toda criança sabe que é dependente, ela precisa de autorização para crescer. Não aprenderá se a família desautorizar a escola, ou se a escola desautorizar a família, ela precisa ter certeza de que ambos têm o mesmo objetivo para se sentir segura e feliz. Precisa superar muitos obstáculos, não precisa que lhe ponham mais no caminho.
Ilustro com uma conversa, acontecida ontem na entrada da escola:
Pedro (autista, 12 anos, sexto ano): todo felino é carnívoro?
Luan (autista, 12 anos, sétimo ano): não, o gato é felino, mas é onívoro.
Pedro: o que é onívoro?
Luan: animais que comem carne, mas comem também legumes e verduras
Pedro: igual ao homem?
Luan: isso, o homem é onívoro.
Pedro: todo canino é carnívoro?
Luan: não, tem o cachorro, que é canino e é onívoro.
Pedro: pássaros são carnívoros?
Luan: só alguns, por exemplo o gavião e o falcão.
Pedro: pássaro que come minhoca é carnívoro?
Luan: não, é insetívoro.
Pedro: o que é insetívoro?
Luan: é o que come insetos.
Pedro: carnívoro, carne; insetívoro, inseto. Faz sentido.
Luan (autista, 12 anos, sétimo ano): não, o gato é felino, mas é onívoro.
Pedro: o que é onívoro?
Luan: animais que comem carne, mas comem também legumes e verduras
Pedro: igual ao homem?
Luan: isso, o homem é onívoro.
Pedro: todo canino é carnívoro?
Luan: não, tem o cachorro, que é canino e é onívoro.
Pedro: pássaros são carnívoros?
Luan: só alguns, por exemplo o gavião e o falcão.
Pedro: pássaro que come minhoca é carnívoro?
Luan: não, é insetívoro.
Pedro: o que é insetívoro?
Luan: é o que come insetos.
Pedro: carnívoro, carne; insetívoro, inseto. Faz sentido.
Então a porta se abriu. Uma mãe, parte da rodinha que se fez em torno dos dois, lamentou: "é a primeira vez que torci pra porta demorar para abrir".
Detalhe: Pedro faz essas mesmas perguntas para um adulto todos os dias, antes da entrada. Inclusive pra mim. Sempre errei as duas sobre felinos e caninos. Não erro mais.
Detalhe: Pedro faz essas mesmas perguntas para um adulto todos os dias, antes da entrada. Inclusive pra mim. Sempre errei as duas sobre felinos e caninos. Não erro mais.
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