Texto de Manuel Vazquez Gil
Já faz algum tempo que meio que me afastei da clínica do autismo. É uma área povoada por tantas teorias e técnicas diferentes, a maioria conflitante, que nem o sempre citado "há muitos autismos" consegue explicar. Às vezes me parece que há mais métodos do que autistas.
Como as pessoas hoje conseguem acessar informações à velocidade da luz, toda essa balbúrdia se espalha como vírus, e a esperança que as famílias nutrem de melhorias faz o resto. Essa Babel moderna inviabiliza qualquer debate honesto, até porque todos temos a tendência de puxar a brasa para nossa picanha, e nosso cérebro é treinado para confirmar a tese que desenvolvemos, e não necessariamente a tese correta.
Daí que, confrontado com tantas vertentes, e tendo minhas convicções, tomei duas decisões: 1 - na clínica, atenderia os pais, não as crianças. Acreditava, e acredito ainda, que pais fortalecidos criam filhos fortalecidos; 2 - dirigi a energia para a escola e o trabalho da inclusão. Acreditava, e ainda acredito, que família e escola, unidas em torno do mesmo objetivo, bastariam para que a criança se desenvolvesse.
Fico triste, porém, vendo gerações se sucedendo com o mesmo conceito equivocado de autismo. Alguns termos se cristalizaram, talvez devido à origem psiquiátrica dos estudos sobre o autismo, e são repetidos sem reflexão. Termos que, aos ouvidos do público leigo, perpetuam uma visão errada e sedimentam o preconceito. Termos que tenho conseguido esclarecer ao público com o qual convivo, mas que vejo espalhado como fogo pelas próprias famílias que se queixam de eventuais atos preconceituosos.
Pois bem: 1 - autismo não é doença, portanto não é uma síndrome: síndrome é o conjunto de sintomas que caracteriza uma doença (por exemplo: a síndrome da gripe é composta de febre, dor no corpo e corrimento nasal); 2 - autismo não é neuroatípico, neutoatipia significa anormalidade, aquilo que foge da regra normal; 3 - autistas gostam de abraços, ou às vezes não gostam, como eu e você. É certo que, tendo sensibilidade mais instintiva e primitiva, percebem mais do que nós quando o abraço é de afeto ou é de urso; 4 - autistas podem ser educados, o autismo não justifica falta de educação, nem da criança, nem dos pais; 5 - autistas são seres humanos tão comuns quanto todos: como possuem todos os órgãos, podem ter dengue, câncer, alergias, obesidade, esquizofrenia, psicopatia, depressão ou qualquer outra intercorrência a que todos estamos sujeitos. Mas não é porque meu filho tem restrição alimentar que isso caracteriza o autismo; 6 - Em concordando que autismo não é uma doença, autistas não têm comorbidades: comorbidade é uma doença que surge em consequência de outra, como a pneumonia em soropositivos, ou um AVC em hipertensos.
Autismo é um desvio, para mais ou para menos, da curva normal do desenvolvimento global (a saber: curva do desenvolvimento global é a que registra a aquisição da fala, da coordenação motora e da sociabilização. Segue parâmetros que medem a maioria das crianças. Aquelas que, por exemplo, não falam após os 3 anos, ou não se socializam após os 2, ou não adquirem coordenação motora suficiente para as atividades da vida diária, estão fora da curva. Mas também estão fora dela os que falam ou andam antes dos 8 meses de idade). É uma explicação aceita pela imensa maioria e que pode ser compreendida por qualquer um.
O que causa esse desvio ainda é um mistério. O que mantém o preconceito e dificulta a compreensão da sociedade e a inclusão escolar são os carimbos. Que, infelizmente, são replicados pelas próprias famílias, através de gerações. É o resultado do massacre a que são submetidas, e da falta de pesquisa séria por parte delas próprias: isso explica o fato de a mesma pessoa dizer frases como: "meu filho não é doente, ele tem uma síndrome"; ou "meu filho é normal, ele é neuroatípico". Ou aplaudir o pai que construiu um balanço para acalmar o filho, mas impedir que seu filho se balance para se acalmar.
Espero que minha decisão de fugir da clínica e me refugiar na escola tenha sido correta: é lá, eu acho, que estão as gerações futuras, as que terão orgulho de conviver com uma criança autista que, na maioria das vezes, é mais eficiente do que deficiente.
O autismo como deficiência, aliás, é algo que não quero debater ainda. Preciso entender esse negócio mais profundamente.
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