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Reflexões da E.M. Domingos Belém parte II por Manuel Vazquez Gil

E. M. DOMINGOS BELÉM, CONTAGEM, MG.
Algumas vezes você sai com a mochila cheia de presentes para algumas pessoas, e volta para casa com a mochila mais cheia ainda, tantos são os presentes que recebeu. Foi mais ou menos o que aconteceu na minha ida à Escola Domingos Belém: a ideia básica era levar a experiência que acumulei com a inclusão em escolas regulares. Voltei pra casa com ideias novas, e não só com isso: ganhei também carinho, acolhimento, o colo típico do povo mineiro, multiplicado por dez.
Mimado foi como voltei.
Deixaram-me tão à vontade que até consegui tecer algumas críticas ao sistema, duas delas que, espero, levem a uma reflexão séria. 
A primeira é uma crítica que geralmente faço nas escolas por onde passo: a inclusão não é um ato, mas um processo. As escolas têm que reduzir a cultura de contratar grandes palestrantes que chegam, dão o recado e se vão para sempre. Ficam dúvidas, problemas, sentimentos de impotência e frustração. As escolas têm que começar a privilegiar pessoas que darão continuidade ao projeto que vão apresentar.
A segunda é sobre o regime de ciclos vigente na cidade. São três: do primeiro ao terceiro, do quarto ao sexto e do sétimo ao nono anos. Só é permitido reter o aluno no último ano de cada ciclo. Argumentei com algumas pessoas que são justamente os três anos mais críticos do ensino fundamental: o terceiro ano é o limite, imposto pelo MEC, para a alfabetização; o sexto é o ano em que, historicamente, em função da mudança radical, há mais reprovações; e o nono é o último ano, o da formatura, o ano em que ninguém deveria ser retido. O regime de ciclos soma a tudo isso a pressão da possibilidade de retenção, e isso, por si só, aumenta as repetências. Encontrei eco nas ponderações, acho que talvez aconteça um início de discussão.
Conversamos sobre avaliação, intervenção e registro, três fases indispensáveis no processo da inclusão. Incentivamos a ideia de que a avaliação deve ser o princípio do processo, a bússola que vai dirigir as intervenções futuras, e não o veredito final. Avaliar para construir, a partir daí, um programa de trabalho, a fim de sanar as dificuldades que aparecerem. Criar a cultura de avaliações constantes e adaptadas às necessidades de cada aluno.
A partir de avaliações adequadas, planejar as intervenções que diminuirão os déficits. Entender que cada aluno tem suas peculiaridades e seu modo de aprender, mas entender também que todos fazem parte de um mesmo grupo, que têm que caminhar juntos. Caminhar juntos às vezes vai significar seguir o ritmo do mais lento, mas isso sempre é passageiro, em pouco tempo o grupo encontra sua própria velocidade no caminhar. E compreender que materiais adaptados só são ótimos, no sentido da socialização e inclusão, se puderem ser úteis para todo o grupo.
Finalmente, registrar tudo. Criar a consciência de que cada aluno tem direito a um dossiê, onde constam seus dados pessoais, laudos médicos, psicológicos ou fonoaudiológicos, queixas da família, intervenções aplicadas, avaliações, pedidos de reuniões, encaminhamentos para profissionais, atas de reuniões com a família. Em especial, compreender que a família tem o direito de ter acesso a esse dossiê, para que possa compartilhar do processo integralmente.
Tenho consciência de que é uma mudança de paradigma e de cultura. Mas sei também que traz resultados rapidamente, e que o aluno, que é o ator principal desse filme, é amplamente favorecido por esse processo.
A única maneira segura de levar a bom termo o processo da inclusão é a parceria pacífica entre escola e família. Tem que ser um pacto, onde as partes tentem chegar a um acordo sempre, e onde a criança seja protegida de eventuais guerras de opiniões. Lembro dos meus pais: em cinquenta anos de casamento, nunca nenhum filho assistiu a uma briga entre os dois, e só soubemos que brigavam, e muito, depois que meu pai morreu.
Agora ficou um desejo: voltar à escola, para poder seguir discutindo o projeto com os professores, e para ter a oportunidade de conversar com os pais. Porque tenho a consciência, como pai de uma criança de inclusão, que, se algumas vezes o obstáculo é a escola, outras vezes é a família. Mas sempre, e eu disse sempre, é a falta de diálogo entre as duas.
Deixo um agradecimento de coração às pessoas bonitas que me mimaram na minha rápida passagem por essa escola, que já mora no meu coração. Qualquer dia destes eu volto para ganhar mais beijos.
P.s.: notei em algumas pessoas a angústia compreensiva de querer saber mais. Espero que tenha compreendido que não poderia, em duas horas, aprofundar um tema que é um curso com duração de dezesseis horas. Deixei meus contatos para tentar sanar em parte essa lacuna, podem abusar de mim à vontade.

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