TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL
Egodistonia, como o nome já denuncia, é a não adaptação do Ego aos impulsos que atingem o sujeito, tanto internos quanto externos. Os conflitos com as necessidades impostas ao Ego geram sintomas que são percebidos parcialmente nas suas ações e nas palavras, porém, isso não quer dizer que os entenda e nem que os aceite.
O detalhe é que o sujeito percebe o sofrimento que causa ao outro, mas não compreende o porquê, então sofre também, com maior intensidade.
Um resumo que sempre faço sobre egodistonia: é o sujeito que não se aceita como é. Que é diferente de não se aceitar como está. Se estou solteiro e não aceito, eu caso; se estou cabeludo e não aceito, corto o cabelo. Mas se sou negro e não me aceito negro, ou se sou homossexual e não me aceito homossexual, isso é egodistonia.
A egodistonia surge depois dos oito anos, quando a personalidade se consolida, mas explode na adolescência, quando os hormônios da puberdade exigem uma definição clara de quem somos.
Ainda desconhecida, praticamente exclusiva do campo da Psicanálise, tenho encontrado um número elevado de egodistônicos entre autistas adolescentes. Aqueles sintomas que se tornam mais fortes nessa idade não são, na verdade, oriundos do autismo, mas da egodistonia. Como é um conceito que só é pesquisado e trabalhado na Psicanálise, e como se difundiu o preconceito de que Psicanálise e autismo não se combinam, esses jovens passam a adolescência e a vida adulta egodistônicos, sem condições de se desenvolver, porque não há crescimento para aquele que não se aceita como é, mas não pode mudar.
O problema é sempre a falta de aceitação. Porque as pessoas confundem amar com aceitar, e acham que, amando, estão aceitando. Mas aceitação não é um movimento de fora para dentro, ela só acontece quando o outro se sente aceito, quando esse sentimento floresce dentro dele e é externado.
Ofereço um exemplo, tirado a clínica: Jonathan, 16 anos, é autista e me visita quatro vezes por mês. Ele me diz que seus pais nunca o aceitaram, e eu pergunto por que, já que o histórico da família é de busca de cuidados desde sempre. Ele me diz que, se seus pais o aceitassem, não teriam trocado o carro por um mais barato para pagar tratamentos para mudá-lo. Pergunto se acha que seus pais nao o amam. Ele me responde que sabe que os pais o amam, só não o aceitam. Pergunto se ele está insatisfeito de ir ao meu consultório, já que está reportando que os pais não o aceitam porque pagam tratamentos. Ele me diz que não, que está feliz comigo porque eu nunca tentei mudá-lo, que sabe que eu não o amo, mas que eu o aceito. "Gosto mais de estar aqui do que com meus pais."
Na sessão seguinte conversamos sobre egodistonia, e ele me disse: esse sou eu, pode me curar? Sim, falei, se você quiser e me ajudar, nós podemos.
A próxima sessão foi com os pais. Cuidar de quem cuida é, essencialmente, ajudar no processo da aceitação. Uma criança aceita integralmente será um adolescente feliz e um adulto realizado
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