TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
No início da vida, quando ainda está na fase do corpo vivido, um bebê "conclui" que tem duas mães: a que alimenta e acolhe, e a que abandona e some. Não que a mãe efetivamente abandone, mas a criança ainda não tem consciência de que o que desaparece da vista dela ainda existe e vai voltar. E, claro, a mãe tem infinitas tarefas a cumprir, e precisa "desaparecer" de vez em quando.
Melanie Klein dava a essa fase o nome de "posição esquizo-paranóide": o bebê "acha" que a mãe é esquizofrênica, no seu movimento de acolhe/some, e fica paranóico com a situação. Por "posição" entende que nem uma é esquizofrênica, nem outro é paranóico, que tudo se passa a nível simbólico.
Quando o bebê adquire movimentos, com o engatinhar e o andar, e pode explorar novos espaços, começa a construir o corpo sentido. Consegue ver, então, que a mãe não desaparece, apenas se desloca para outro lugar. A posição kleiniana muda, com a criança percebendo que a mãe é maníaca ("cuidado, vai cair!"; "não suba aí!" "não mexa nisso!"), e entra numa posição depressiva, compondo a posição maníaco-depressiva.
É também o início da introjeção do Supergo, com a overdose de nãos diuturnos. Mesmo que o pai seja ausente ou nem exista, a mãe cuida para introduzir o Pai na elaboração mental da criança, representada pelas proibições da cultura.
Algumas crianças, por dificuldade relacional, não constroem ou não superam as posições citadas, nem passam incólumes pelas fases da representação do corpo na mente (já falei sobre isso aqui). Não "percebem" as tais duas mães e se mantém em posição alienada e depressiva. Mesmo os desesperos maníacos da mãe não são percebidos na sua plenitude. Em função disso, demoram para construir o Superego e, em consequência, também o Ego.
Duas possibilidades: ou o Id fica no comando mais tempo do que deveria, ou o Superego tardio, numa idade de maior compreensão, toma o controle e massacra o Id. Na primeira condição, com o Id no comando, a adolescência mostra um jovem egossintônico; na segunda, sob a ditadura do Superego, o jovem se mostra egodistônico.
Você já ouviu falar de autistas serenos que, ao chegar à adolescência se tornam agressivos, tendentes à agressão ou auto agressão, e já ouviu falar de autistas que, ao chegar à adolescência se tornam serenos e com tendência à depressão. E também já ouviu falar de autistas que passam pela infância e adolescência sem grandes oscilações.
Talvez você leia o que escrevo por cortesia e não acredite numa palavra do que digo. Já ouvi gente querida dizendo que minha escrita é muito poética para soar verdadeira. Espera-se de um profissional sério um modo sério de escrever e falar. Não sou assim, embora minhas teses científicas sejam escritas de modo convencional, como pede a academia. Mas, mesmo não acreditando, você deveria pensar e colocar num cantinho do cérebro para meditar sobre o assunto, porque posso lhe mostrar dezenas de casos onde essa abordagem fez diferença.
Conhecimento nunca é demais, e o melhor conhecimento de todos é aquele em que não acreditamos.
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