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ID, EGO, SUPEREGO - PARTE 2

TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL

Considerando que o Ego tem a função precípua de mediar conflitos entre o Id e o Superego, fica fácil compreender que ele só existirá se existirem os outros dois. Não há necessidade de um Ego onde só existe o Id ou o Superego. Nesse sentido, é preciso que à criança seja permitido ser criança enquanto seus pais introduzem, aos poucos e respeitando sua idade e desenvolvimento, o Superego.
Cito um exemplo: até os seis anos de idade, meu filho era Superego puro: metódico, controlado, arrumava tudo sempre da mesma maneira e recusava-se a sair de casa enquanto não recolocasse tudo no seu devido lugar. Tinha crises quando alguém "arrumava" suas coisas em outro lugar. Levei muito tempo para ensina-lo a ser mais descuidado, menos neurótico, deixar tudo bagunçado e sair, para arrumar na volta, se desse vontade e tempo. Mais de dois anos para fazer aflorar seu Id, de modo que ele pudesse construir um Ego adequado, como efetivamente é seu Ego hoje.
As demandas da primeira infância permitem o domínio do Id, sem muitas vergonhas. À medida em que crescem, as crianças são cobradas para manter uma postura mais "social", e é aí que entram as ordens do Superego, seguidas de repressões e castigos. Como os desejos do Id ainda são fortes, o braço da balança começa a dobrar, e vem a revolta. É uma idade, no entanto, em que a criança ainda vê os pais como autoridades incontestes, e se dobra à vontade deles.
Até que chega a adolescência, seus hormônios e suas exigências. Rapidamente o jovem percebe que seus pais eram uma fraude, com relação à introdução do Superego. Não eram heróis nem santos, mentiram, enganaram, chatagearam e usaram do seu tamanho e idade para dobrar os filhos. Não tinham exatamente a autoridade que pareciam transparecer, eram seres humanos comuns como qualquer outro que povoava o mundo.
A mudança de visão sobre os pais, e consequentemente sobre o Superego, coloca pressão desmedida sobre seu Ego incipiente, e muitas vezes ele se torna incapaz de negociar, tornando-se, ao contrário, fonte e combustível de alguns conflitos. Surgem os desvios egóicos chamado de egossintonia e egodistonia. Sobre o segundo já falei aqui: é quando o sujeito não se aceita como é. Sobre o primeiro dou rápida pincelada: é quando o Ego, desiludido e frustrado com o Superego, associa-se aos sintomas, entra em harmonia com ele e perde a noção de que suas ações ferem o outro.
Enquanto o egodistônico machuca as pessoas, sabe que machuca, sofre com isso, mas não sabe o porquê, o egossintônico machuca as pessoas e não se importa com isso, não sofre nem nutre qualquer sentimento de preocupação com o outro.
É relativamente fácil tirar uma pessoa da egodistonia, desde que todos os envolvidos colaborem com o processo, mas até terapeutas experientes encontram dificuldades para tirar uma pessoa da egossintonia. Na maior parte das vezes, é necessário levá-lo ao outro extremo, à egodistonia, para depois fazer o trabalho da normalização. Nesse processo, a maioria dos sujeitos desiste do tratamento, ou é retirado pelos pais, o que o faz retornar ao estado egossintônico.
Existem algumas pessoas que, por sua condição, são mais suscetíveis às mudanças do Ego durante a adolescência. Alguns autistas se incluem nesse grupo, embora nem todos. É possível que sua história na primeira infância, durante a construção do Superego e consequentemente do Ego faça a diferença no comportamento, quando chega a adolescência.
O que nos leva ao paradigma: quanto mais aceitarmos nossos filhos como eles são, desde a primeira infância, deixando que o Id faça seu trabalho, e o Superego seja apresentado com suavidade, e quanto mais verdadeiros e transparentes formos com eles, mais serena será sua passagem pela turbulência da adolescência.

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