Texto de Manuel Vázquez Gil
Você sabe o que é: é quando uma criança cria um sentimento de repúdio a um dos pais em função da doutrinação negativa feita pelo outro progenitor. É uma situação delicada, que afeta profundamente a condição psicológica da criança, tornando-a arredia, depressiva e causando sérios retrocessos no aprendizado escolar.
O Brasil é o único país que criminaliza a alienação parental (lei 12318/2010), que pode levar até à perda da guarda, mas assim mesmo é uma situação que se repete mais do que o desejado. Legalmente, a alienação quer for praticada contra familiares próximos, que também têm vínculos com a criança (como avós, tios, padrinhos, irmãos) é considerada de mesma gravidade da praticada contra um dos pais.
A lei não prevê, e mesmo Richard Gardner, psiquiatra infantil americano que propôs a existência da Síndrome da Alienação Parental (nunca reconhecida pelos manuais psiquiátricos, mas tristemente real) reconhece, mas os sintomas da alienação parental são sentidos também quando a família executa a doutrinação negativa sobre o professor da criança. Isso acontece porque o professor é visto pela criança como uma autoridade protetora que cuida dela e ensina coisas novas todos os dias, durante pelos menos a metade do dia.
Tenho encontrado casos e casos, em escolas, de crianças com dificuldades de aprendizagem causadas pela alienação. Costumo chamar a isso "falta de autorização para aprender": como uma criança pode aprender com aquele professor, se a família diz que ele não está preparado, não sabe, não tem condições?
A própria presença de um auxiliar na sala de aula, para uma criança, provoca a desconfiança de que o professor não é capaz. Até por isso, mas não só por isso, a lei proíbe o auxiliar de substituir tarefas do professor.
Você ficaria chocado se eu lhe dissesse que encontro até casos de crianças com laudo de deficiência que não têm deficiência nenhuma, e que seus déficits são causados pela alienação?
O problema central é que nem sempre, ou quase nunca, a escola tem condições práticas de perceber a situação familiar, e o foco da dificuldade fica sempre sobre a criança. É mais fácil pra mim, experiente e treinado, perceber o que ocorre numa reunião entre escola e família, e mais fácil também abordar o assunto com a família.
Mas não é incomum que o ódio vença, e eu não consiga convencer a família de que, para o bem da criança e economia de tempo, energia e dinheiro com terapias, basta mudar as prioridades e, em lugar do ódio, colocar tolerância e colaboração.
O que é muito triste: pessoas que dizem amar a criança não são capazes de fazer esse amor ser maior do que o ódio que sentem uns pelos outros. Incluído o ódio que sentem pelo professor.
Mas tenho tido sucesso em muitos casos, e são esses que me levam a seguir em frente, e a serem exemplos para quem não consegue se livrar das mágoas e ressentimentos.
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