Texto de Manuel Vázquez Gil
Hoje Shelley Berger, da Universidade da Pensilvânia, veio tomar um café conosco. Ela e sua equipe publicaram um interessante estudo na Science, que responde a uma curiosidade recorrente na cabeça de qualquer pesquisador: por que, se todas as formigas de um formigueiro descendem da mesma formiga rainha, cada um delas cresce para uma função específica e não consegue fazer outra função?
Um mapeamento genético do formigueiro todo, feito por Shelley e sua equipe, mostrou que todos os insetos têm o mesmo DNA. Além disso, todas crescem no mesmo ambiente. No entanto, algumas serão operárias, outras serão guardiães, e seu DNA não se modificará durante toda a sua vida.
Significa que a genética, com certeza, não tem a última palavra.
Pois a doutora Berger conseguiu mapear e manipular as moléculas que chamamos de epigenéticas (de "epi" - "em cima, sobre" + genética). Ou seja: são moléculas que ficam sobre os genes e que ou os ativam ou os desativam. Significa também que, a depender dessas moléculas, genes podem ou não ser ativados, e dois indivíduos com o mesmo DNA agirão diferentemente, ao sabor das moléculas epigenéticas.
Isto é: pessoas têm epimarcas, e elas vão determinar a disposição genética não só dos comportamentos, mas até das doenças.
O mais interessante nessas epimarcas é que elas pertencem ao indivíduo, não sendo transmitidas por herança de pais para filhos: mesmo tendo as mesmas características genéticas dos seus pais, filhos terão outras epimarcas, ativando genes e modulando comportamentos.
Agora você podia parar para pensar um segundo sobre a afirmação que tenho feito ano após ano: o autismo não é genético nem é herdado dos antepassados. É uma personalidade modulada pelas epimarcas, totalmente pessoais e intransferíveis. Podia também parar para pensar sobre o que digo a respeito disso: moléculas da epigenética podem até ser manipuladas, mas ainda não temos tecnologia nem experiência para tal. Os experimentos da doutora Berger são só um começo, embora promissor.
Mas talvez se lembre sobre o que falo da dieta sensorial: um ambiente livre de obstáculos aos sentidos e sentimentos, adequado e propício, com cores, sabores, odores, texturas e sons agradáveis ao sujeito, e cujo início é sempre a aceitação, é o ambiente que modela as moléculas epigenéticas, e são elas que modelam os genes, que por sua vez modelam comportamentos.
De certa forma, os Fatores Neurotróficos, elementos chave para o bom funcionamento do cérebro, são compatíveis com as tais células epigenéticas, não interferindo no DNA, mas modulando a fagocitação e a neurogênese.
O futuro está cada vez mais próximo. Nele, descobriremos que a solução sempre esteve em nossas mãos, e que o grande erro foi coloca-la em mãos alheias.
Sempre foi apenas entre nós dois: amigos, inimigos, humoristas, sogras, cunhados, filhos, pais, políticos, médicos, terapeutas e cientistas são desculpas que damos a nós mesmos para não precisar agir.
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