Texto de Manuel Vázquez Gil
(conheça estudos fascinantes que podem mudar suas crenças sobre o poder da ciência. A série teria o título de "espistemologias", mas acrescentei o prefixo neuro para aumentar o preço da revenda).
Eu lhe apresento James Fallon, professor de anatomia e neurobiologia da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em Irvine.
É um neurocientista sessentão que, nas suas pesquisas, percebeu relações de padrões anatômicos nos cérebros de psicopatas e sujeitos com comportamento antissocial: segundo ele, baixas atividades neuronais em algumas áreas dos lobos temporal e frontal eram comuns aos sujeitos com comportamento criminoso e violento, o que os diferenciava dos demais humanos normais.
Para comprovar sua tese, ele fez os testes tomográficos em si mesmo e em seus familiares.
Descobriu que ele tinha as características cerebrais de um psicopata!
Após a constatação, sua mulher confirmou que ele tinha mesmo tais características: insensibilidade, praticidade, pequenas transgressões à lei, falta de empatia com a desgraça alheia. Ele era mesmo um psicopata.
Só que ele jamais tinha cometido um ato violento ou criminoso, não fazia mal a ninguém, pelo menos nada de muito grave, e mantinha sua família. Numa tentativa de tentar explicar, concluiu que foram a sua família e os cuidados que tinham com ele que evitaram que ele tivesse se tornado um Hannibal Lecter.
Resta saber, é claro, se essa conclusão está correta, ainda mais vinda da cabeça de um psicopata frio, insensível sem empatia e que cometia pequenos delitos.
O que Fallon havia descoberto era mais terrível e assustador do que o fato de ele poder ser um psicopata: descobrira que não há relação nenhuma entre a conformação do cérebro e atos criminosos. Passara toda uma vida defendendo uma tese que não se sustentava, justamente porque ele era um bom sujeito, se é que pode-se considerar um bom sujeito alguém com as "qualidades" dele.
Fallon faz parte de um grande grupo de humanos, muitos dos quais, inclusive, amigos meus. A diferença é que esses meus amigos não têm coragem de admitir, como ele fez.
Talvez você devesse acreditar mais em si mesmo e nas relações que faz com aqueles que ama e que amam você, do que em pesquisas que prometem o que não podem entregar. Ou, pior, que entregam o que pode entregar você.
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