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GENERALIZAÇÕES

TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL

Já contei aqui que o princípio de todo preconceito é a generalização. Num mundo onde tudo é singular, onde não existem duas pessoas iguais, escolher um grupo e botar num saco só é generalização e, por causa disso, gera preconceito, sempre mitigado por um sinistro "mas": "todo negro é, mas você..."; "todo gay faz, mas você..."; "a psicanálise é, mas você...".
Imagine se um grupo de pneumologistas norte-americanos elaborasse um manual criando o Transtorno do Espectro Respiratório (TER). Asma. bronquite, rinite, sinusite, pneunomia e enfisema pulmonar deixariam de existir, e passariam a ser classificadas de leve, moderada e severa.
Ou que um grupo de cardiologistas criasse o TEC; um grupo de cancerologistas, o TET; um grupo de psiquiatras o TEM.
Ora, tudo na vida está dividido um leve, moderado e severo. Desde um acidente doméstico até um câncer; desde as notas de avaliação até o amor (ou o ódio) que você sente por mim. Até nisso a generalização não cabe.
Agora imagine que um grupo de religiosos criasse uma nova versão do Novo Testamento, mudando conceitos e termos, e sinta o prejuízo que isso causaria ao cristianismo. Para imaginar, basta observar as milhares de mortes causadas por uma leitura equivocada e particular do Islã, mas isso também já ocorreu com cristãos e com protestantes num tempo passado (embora, em pequena escala, ainda aconteça).
A soma dessas duas imaginações foi o que fez o DSM-V: subverteu a "bíblia" oficial que representa o CID-10, documento da Organização Mundial da Saúde, e generalizou uma condição, metendo no mesmo saco indivíduos totalmente diferentes entre si. E fez a classificação que fazemos em todas as situações da nossa vida e quem nem precisaria fazer, de tão desnecessária. Os prejuízos são grandes, inclusive reacendendo a velha batalha dentro do próprio movimento e extinguindo, num só golpe de caneta, a comunidade aspie.
Ficou tão ruim, que psiquiatras norte-americanos já não o seguem, e pedem sua revisão, e até alguns que participaram da elaboração fazem mea culpa. Mas, não sei o por quê, muitos profissionais e famílias brasileiras adotaram-no e passaram a falar em TEA o tempo todo. Mesmo que nossas leis só citem TGD, aquela sigla mágica e oficial que separa pessoas diferentes em diagnósticos diferentes.
Quem sabe se o amor que sinto por você é leve, moderado ou severo sou eu; quem sabe sobre o seu amor é você. Uma simples dor de cabeça em mim pode ser uma enxaqueca em você. Não dá pra medir o outro com a nossa régua.
Acredite em mim: tudo fica mais fácil e mais pacífico quando eliminamos o TEA das nossas relações. Na clínica, em escolas, no dia a dia, eu falo com as pessoas sob o ponto de vista oficial: seu filho tem um Transtorno Global do Desenvolvimento. É uma condição que altera o desenvolvimento como um todo, às vezes para menos, em algumas coisas para mais. O que precisamos é criar intervenções não invasivas para que seu desenvolvimento possa prosseguir, mesmo que seu ritmo seja diferente dos demais.
Até porque cada um de nós é único e, de acordo com o que fazemos, ora somos leves, ora moderados e ora severos. A generalização causa prejuízos e faz nascer o preconceito.

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