TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Etimologicamente, psicologia é o estudo da mente. Com variáveis, ela existe desde que o homem encontrou outro homem numa picada da floresta: é inevitável que tentemos compreender o que o outro pensa. Como disciplina terapêutica ela é recente: foi Freud quem sistematizou o atendimento psicológico em consultório, antes dele a psicologia era apenas experimental, de pesquisas em campo ou laboratório.
Freud está para a psicologia moderna assim como a matemática está para a Engenharia. Um psicólogo negar Freud corresponde a um engenheiro negar Euclides. Sei que tanto a matemática quanto a psicologia evoluíram, mas não compreendo o massacre empreendido contra a Psicanálise, geralmente baseado numa frase ou num conceito, quando Freud escreveu 24 livros apenas para sistematizar essa disciplina, sem contar centenas de ensaios e milhares de artigos.
Interessante notar que, nas palavras que jogo pelo caminho para que as pessoas tropecem nelas e reflitam sobre conceitos arraigados na alma, uso conceitos e técnicas psicanalíticas e as pessoas gostam. Talvez porque não saibam que são tiradas da Psicanálise.
Já contei que deixei o Behaviorismo porque não me achava ético no trato com os clientes. É ponto pacífico entre psicólogos que o cliente é o sujeito que está ali diante dele, e que ninguém pode interferir na terapia entre os dois. O set admite apenas duas pessoas: o cliente e o terapeuta, e é o cliente que tem que ter atendidas suas demandas. No entanto, eu me via costumeiramente atendendo demandas de pais e professores, e confrontado com pedidos estranhos, como o de participar das sessões, ou filma-las para que os pais pudessem vê-las.
Uma vez um pai me disse que eu deveria colocar um daqueles vidros de interrogatórios, para que ele pudesse assistir as sessões, e alguns me pediam para colocar uma câmera. Para não polemizar, mudei: não há esse tipo de pedido na Psicanálise. Aliás, um ponto que deixa claro as relações horizontais que regem a terapia psicanalítica é que psicanalista não tem paciente, o sujeito que está ali à frente dele jamais será tratado como paciente.
Com certeza eu estaria mais rico e famoso, e teria menos trabalho e dores de cabeça se me mantivesse behaviorista. Mas, ao jogar palavras pelo caminho, eu mesmo tropecei nelas, e parei pra pensar. Somos movidos mais por crenças que nos impuseram do que por pensamentos próprios nossos, e isso tem que mudar. Não podemos nos manter sempre no confortável casulo da crença comum e grupal, precisamos sofrer a metamorfose para voar e encontrar o caminho para a flor.
A flor, no caso, é a meta a alcançar. É nela que está o pólen da vida, e vida é mudança. Se você não se propuser a deixar em suspenso suas crenças, se não tiver a coragem da dúvida, se não enfrentar as dificuldades de sair do casulo jamais voará. Sem o seu voo, a flor morrerá e outras flores nem nascerão.
Freud ganhou prêmios literários importantes, ele é o único exemplo que ainda temos de prêmios literários para obras científicas. Porque escrevia bem, leve e agradável. Você pode ler seus livros como lê um bom romance. Leia, deixe que mais palavras façam você tropeçar e desafiar suas crenças. Acredite: minha vida e a de todos os que me rodeiam mudou também graças a isso. Incluindo você.
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