Pular para o conteúdo principal

TEMPOS DIFÍCEIS - II

TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Belinha faz desenhos rupestres nas paredes com seu próprio cocô. às vezes brinca de massinha com ele. Seus pais, claro, se preocupam e às vezes se desesperam. Belinha faz isso para tentar exercer o controle, sobre as fezes e sobre os pais. E tem conseguido.
As fases de desenvolvimento psicológico infantil foram sistematizadas por Freud, embora pouco se cite seu nome quando o assunto é esse. Ele descreveu a fase oral, quando não só o prazer, mas a sobrevivência, está na boca; a fase anal, quando a criança aprende a controlar os esfíncteres; a fase fálica, quando a criança percebe as diferenças dos gêneros sexuais; a fase de latência, quando a criança sublima todos os instintos anteriores e fica pronta para a escola; a adolescência, aquela fase em que tudo explode, desde os hormônios até a imagem que a criança tinha de si e dos seus pais.
Também descreveu as características dessas fases. Interessa-nos, no caso presente, a fase anal. É uma fase em que a criança se torna sádica e controladora, torturando os pais, em especial a mãe, com sucessivos desarranjos intestinais, que quase sempre surgem em momentos impróprios: se você comprou um ingresso para o show da Bethania com meses de antecipação, pode se preparar para um desses desarranjos horas antes do início do espetáculo.
Há apenas uma forma de lidar com crianças sádicas e controladoras: dar-lhe o controle. Nenhuma outra técnica consegue resultados melhores e mais rápidos do que oferecer aquilo que a criança está conseguindo sem auxílio, e apesar dos esforços dos pais. Porque a luta é por controle, e crianças sádicas sempre ganham, porque pais não conseguem agir com sadismo também.
É mais fácil passar o controle e conseguir sucesso com meninas, quando a disputa é com a mãe, porque esta pode oferecer o papel de mãe para a filha. Como cada família tem sua rotina, cada mãe precisa saber em que ponto ou ação pode dar o controle para a filha, e que não vai coloca-la em risco, por isso é difícil para mim listar as ações que podem ser entregues ao controle de Belinha.
Posso citar meu próprio exemplo: eu entreguei todo o controle para meu filho, desde a roupa que queria vestir até o alimento que queria consumir. Usei uma técnica particular: no seu armário só tinha roupa que podia escolher, na geladeira só alimentos que podia ingerir, na fruteira e na bomboniere também. Todos os dias revisava e renovava a roupa do armário, de acordo com o clima ou a ocasião, e guardava no meu a que não podia usar, mas a autonomia de escolha dele era total.
Como tinha o controle de tudo, não precisou usar por muito tempo o cocô para me controlar. Como não precisava me controlar, não precisou ser sádico comigo.
Eu sei que os pais de Belinha vão encontrar uma maneira de passar o controle para ela. Então ela não precisará mais pintar as paredes para chamar a sua atenção ou para confronta-los. 
Então essa fase desaparecerá.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia