TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL
Belinha faz pinturas rupestres nas paredes com o próprio cocô. O inusitado do ato e a natural aversão que temos às fezes torna difícil dizer pra mãe de Belinha que isso é um alento, uma boa notícia no que diz respeito ao desenvolvimento e autonomia da menina. De certa maneira, é um desaforo falar desse modo: como é que o ato de passar o cocô na parede pode significar um avanço? É a sério ou ta brincando comigo?
Tentarei, sem muita esperança de explicar, e muito menos de convencer, mas tentarei.
O controle dos esfíncteres é uma fase difícil e trabalhosa para todos os envolvidos, porque depende da maturidade fisiológica e mental da criança para acontecer. É também o início do ritual de controle que a criança tenta exercer sobre os pais: a compreensão de que fazer ou deixar de fazer cocô é um ato de total controle seu, sem interferência de nenhum adulto, dá à criança um poder nunca experimentado. Por isso costumo dizer que a criança não aprende a controlar o cocô, mas aprende a controlar a mãe através do ato de defecar.
Ao mesmo tempo, é a primeira obra autônoma de sua total autoria. Não por acaso, chamamos o ato de defecar de “obrar”. Somado a isso, há o fato de que a aversão e o nojo às fezes não é inato nem natural, e crianças pequenas não têm esse sentimento com relação ao próprio cocô. Muitas crianças brincam com ele, oferecem à mãe como troféu, pintam paredes, passam no próprio corpo e algumas, inclusive, comem. Não é surpreendente que isso ocorra, já que é algo que sai de dentro dela, portanto é parte integrante de si. Sem contar o fato de que, por meses e meses, assistiu à mãe limpá-la sem constrangimentos, na maioria das vezes com alegria e satisfação.
O ponto é: o asco ao próprio cocô é social, e crianças ainda não socializadas consideram natural sua manipulação. Mas adultos socializados não acham isso, e esse é o caso de Belinha e sua família.
Belinha é autista, e o autismo é um transtorno global do desenvolvimento, uma condição humana que afeta todos os eixos do desenvolvimento infantil. Belinha não segue exatamente a curva dos seus amigos, e as fases conhecidas do desenvolvimento são diferentes nela. Podem ser mais rápidas ou mais lentas, mas sempre chegarão. Significa que ela pode estar hoje numa fase em que deveria estar alguns anos atrás, mas que irá superá-la e passar para a seguinte. Enquanto não a supera, brinca com o cocô.
Em palavras mais alentadoras, treina autonomia e controle. Porque é ela quem decide quando obrar e onde espalhar a obra. Faz isso, provavelmente, para demonstrar que está crescendo e pode decidir pequenas coisas, e para demonstrar que pode controlar algumas situações.
Superada essa fase de controle e manipulação, Belinha estará pronta para a próxima, que é a de ser controlada e manipulada para o aprendizado formal de aprender a ler, escrever e conviver socialmente com seus amigos.
Mas, como seus pais se desesperam, porque isso não é coisa que se faça, é preciso apressar essa fase, para que Belinha possa avançar de nível e possa iniciar a aprendizagem formal. Prometo voltar mais tarde com dicas valiosas para esse caso em especial.
Por enquanto, e até a volta, preciso dizer aos pais de Belinha que têm feito um belo trabalho: se não tivessem deixado Belinha crescer, ela não estaria pintando obras de arte nas paredes e não estaria pronta para crescer e aprender. E não me odeiem, também eu tenho aversão a cocô, embora jamais tenha tido problemas em limpar a bunda dos meus filhos e dos filhos dos outros. De certa maneira, parece que cocô de criança não é tão nojento assim.
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