Pular para o conteúdo principal

NADA SOBRE NÓS SEM NÓS

TEXTO DE MANUEL VÁZQUEZ GIL

O Primeiro Encontro Brasileiro de Pessoas Autistas - EBA - aconteceu nos dias 22, 23 e 24 de setembro de 2016, em Fortaleza, Ceará, gestado, promovido e executado pela ABRAÇA, Associação Brasileira em Ação pela Defesa dos Direitos das Pessoas Autistas.
Para a maioria das pessoas, pareceria uma ousadia sem limites: juntar, num mesmo espaço, dezenas de autistas de todo o Brasil e do exterior, dar-lhes voz e acatar seus pensamentos o orientações, recolher-se ao papel de coadjuvante e deixar que exercessem seu protagonismo e cidadania.

Para nós, da Abraça, acostumados que estamos a eventos, mesmo que menores, com a participação deles, e que já sabemos dos seus talentos e capacidade de se adaptar ao meio, não meteu medo: aprendemos que é muito mais difícil promover eventos com não autistas.
Durante três dias eles tomaram conta do pedaço, viajando de longe ou de perto, a pé, de ônibus ou de avião, chegaram e assumiram o trono, que é o seu lugar. Mesmo pessoas que não compreendiam, de início, o que estava acontecendo, rapidamente foram se recolhendo ao seu lugar na
arquibancada, e deixaram os atores principais fazerem o jogo.
Exerceram o direito de falar ou de calar, andar ou ficar. Adaptaram-se ao exército de cinegrafistas e da equipe de apoio, e à ideia de estarem sendo filmados e transmitidos ao vivo. Não se intimidaram, não recuaram. Gente de fibra, que sabe o que quer e o que faz.
Parte integrante e importante da diversidade humana.
Para nós, da Abraça, fica a certeza de que fizemos história e a gratidão pelo oceano de saberes que recebemos. Eric Lucas, que veio da França e viajou o mundo, disse-nos que jamais tinha visto algo igual e que talvez isso só fosse possível neste país. 
Construímos um EBA como deveria ser: sem horários nem tratamentos diferenciados, oferecendo as adaptações e apoios necessários, mas participando em igualdade de oportunidades e condições. As perguntas vindas da plateia foram do nível de qualquer palestra feita por qualquer especialista. Não houve um incidente negativo em todo o evento. A voz de todos eles foi respeitada e serviu de reflexão para todos nós.
Fizemos, ao vivo, a representação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Quem viu jamais esquecerá, quem não viu sempre vai poder ver, para isso gravamos e disponibilizamos no youtube.
Quebramos um paradigma, e por isso fizemos história. Ainda agora, de vez em quando fecho os olhos, relembro e choro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia