Texto de Manuel Vazquez Gil
Voltei ontem de mais uma etapa do projeto Aprendendo a Aprender em Contagem, Minas Gerais. Sempre são dias muitos intensos e proveitosos quando vou para lá, mas estes foram especialmente recompensadores, porque consegui costurar alguns pontos entre todos os atores de um processo inclusivo: comecei o dia conversando com mães de alunos com deficiência, assisti a algumas aulas dentro da sala, observei a atuação pedagógica de alguns professores, conversei, ajudei e analisei o processo de aprendizagem e comportamento de alguns alunos e terminei o dia na Secretaria da Educação, conversando com os gestores do município, tanto da escola básica, quanto da inclusão.
Passamos metade do ano passado em contato com educadores do município, tentando compreender a cultura de lá. No início deste ano, começamos o trabalho do projeto em uma escola. Neste mês de maio começaremos a atender uma segunda escola. Nesse ínterim, fomos construindo um diagnóstico, com a ajuda de gente bonita e capaz, no sentido de compreender a escola e a comunidade, para poder elaborar um plano de atuação mais eficaz.
Ocorre que, num mesmo município, cada escola tem sua própria personalidade, que é a soma das personalidades dos atores que nela estão: alunos. professores, funcionários, famílias e moradores da comunidade. E qualquer profissional que ofereça serviços para otimizar a inclusão tem que conhecer a personalidade da escola. Por isso não aprecio a cultura de palestrantes que chegam, falam e se vão, porque inclusão é um processo contínuo, não um momento de reflexão.
Chego, tomo café com os professores, converso com funcionários, brinco com alunos, saio da escola, caminho pelas ruas em volta, tomo uma coca no bar da esquina, um café na padaria do bairro, converso com algumas pessoas, observo as calçadas, casas, volto para a escola e comento o que vi e ouvi. Preciso conhecer a personalidade da comunidade, falar o idioma daquelas pessoas, saber como vivem, o que pensam, como se vestem, o que fazem. Aquela escola, afinal, é a soma de todas aquelas pessoas, sou um forasteiro e devo aprender seus costumes para fazer um trabalho decente.
Assim entendemos o processo de inclusão: A - uma escola é uma empresa, com identidade própria e com um único cliente, o estudante; B - o produto que vende é a educação; C - sua meta é formar cidadãos plenos de direitos e conhecedores dos deveres; D - os educadores são os professores, funcionários e familiares; E - para que a equipe possa funcionar, todos seus elementos - incluindo familiares - têm que ter o mesmo tipo de informações sobre o processo e sobre legislação; F - a Secretaria da Educação tem que elaborar um corpo de normas técnicas que sirvam para harmonizar a atuação de todas as escolas; G - também deve ter um sistema informatizado que permita acessar rapidamente onde estão os clientes e onde estão os funcionários e serviços que possam acessar; H - todo gestor, professor, funcionário e pai de criança com deficiência deve ter a possibilidade de conhecer a legislação pertinente ao assunto.
O que temos feito nas escolas que assessoramos é justamente isso: equalizar conhecimentos da legislação e do processo entre todos os educadores (lembre-se que a família também faz parte dessa equipe), para que sejam mínimos os atritos entre eles, e dar conhecimento do andar do projeto, documentando todas as avaliações e observações, de modo a negociar as intervenções necessárias. Para isso fazemos as reuniões com os pais e cuidadores.
O cuidado que uma escola, ou uma rede de escolas, deve ter durante esse processo é se certificar do que realmente deseja fazer e construir uma filosofia de trabalho com as famílias, de modo a não introduzir surpresas que fujam desse entendimento ou dessa linha de atuação: um trabalho de meses, que apresenta resultados mensuráveis e constantes, pode ser estremecido e dificultado pela contratação, por exemplo, de um palestrante digno e competente que, no entanto, traz uma filosofia de trabalho diferente ou conflitante com a que se escolheu.
A liderança tem que ser firme, serena e transparente. As famílias não podem ter dúvidas sobre o caminho que foi escolhido e está sendo trilhado. Um gestor que escolhe o caminho da inclusão não pode contratar profissionais que não acreditam nela ou que tenham outro tipo de solução. Não se trata de não ouvir opiniões diferentes, longe disso. Trata-se de acreditar no caminho que escolheu e de não confundir aqueles que caminham ao lado e que são a parte mais importante da jornada a vencer. O momento de ouvir o máximo de opiniões é ideias é antes da escolha de uma linha de atuação. Com o processo em andamento, esse tempo passou.
Diferentemente de muitas outras decisões que tomamos na vida, a inclusão é um trilho, não é uma trilha. Não se trata de discutir se deve ou não acontecer, trata-se de discutir como agiremos para que tenha o máximo de celeridade e qualidade, e com o mínimo de atritos e dores, porque não tenha dúvidas de que vai acontecer.
É o que estamos fazendo em Contagem, com o apoio inestimável dos estudantes, equipe educadora (não esqueça: família também!) e gestores da Secretaria da Educação, que inclusive já contaminou o prefeito, uma pessoa com deficiência que não só acredita como vivenciou a inclusão.
Dá gosto de ir e dá vontade de ficar.
Quem sabe um dia.
Voltei ontem de mais uma etapa do projeto Aprendendo a Aprender em Contagem, Minas Gerais. Sempre são dias muitos intensos e proveitosos quando vou para lá, mas estes foram especialmente recompensadores, porque consegui costurar alguns pontos entre todos os atores de um processo inclusivo: comecei o dia conversando com mães de alunos com deficiência, assisti a algumas aulas dentro da sala, observei a atuação pedagógica de alguns professores, conversei, ajudei e analisei o processo de aprendizagem e comportamento de alguns alunos e terminei o dia na Secretaria da Educação, conversando com os gestores do município, tanto da escola básica, quanto da inclusão.
Passamos metade do ano passado em contato com educadores do município, tentando compreender a cultura de lá. No início deste ano, começamos o trabalho do projeto em uma escola. Neste mês de maio começaremos a atender uma segunda escola. Nesse ínterim, fomos construindo um diagnóstico, com a ajuda de gente bonita e capaz, no sentido de compreender a escola e a comunidade, para poder elaborar um plano de atuação mais eficaz.
Ocorre que, num mesmo município, cada escola tem sua própria personalidade, que é a soma das personalidades dos atores que nela estão: alunos. professores, funcionários, famílias e moradores da comunidade. E qualquer profissional que ofereça serviços para otimizar a inclusão tem que conhecer a personalidade da escola. Por isso não aprecio a cultura de palestrantes que chegam, falam e se vão, porque inclusão é um processo contínuo, não um momento de reflexão.
Chego, tomo café com os professores, converso com funcionários, brinco com alunos, saio da escola, caminho pelas ruas em volta, tomo uma coca no bar da esquina, um café na padaria do bairro, converso com algumas pessoas, observo as calçadas, casas, volto para a escola e comento o que vi e ouvi. Preciso conhecer a personalidade da comunidade, falar o idioma daquelas pessoas, saber como vivem, o que pensam, como se vestem, o que fazem. Aquela escola, afinal, é a soma de todas aquelas pessoas, sou um forasteiro e devo aprender seus costumes para fazer um trabalho decente.
Assim entendemos o processo de inclusão: A - uma escola é uma empresa, com identidade própria e com um único cliente, o estudante; B - o produto que vende é a educação; C - sua meta é formar cidadãos plenos de direitos e conhecedores dos deveres; D - os educadores são os professores, funcionários e familiares; E - para que a equipe possa funcionar, todos seus elementos - incluindo familiares - têm que ter o mesmo tipo de informações sobre o processo e sobre legislação; F - a Secretaria da Educação tem que elaborar um corpo de normas técnicas que sirvam para harmonizar a atuação de todas as escolas; G - também deve ter um sistema informatizado que permita acessar rapidamente onde estão os clientes e onde estão os funcionários e serviços que possam acessar; H - todo gestor, professor, funcionário e pai de criança com deficiência deve ter a possibilidade de conhecer a legislação pertinente ao assunto.
O que temos feito nas escolas que assessoramos é justamente isso: equalizar conhecimentos da legislação e do processo entre todos os educadores (lembre-se que a família também faz parte dessa equipe), para que sejam mínimos os atritos entre eles, e dar conhecimento do andar do projeto, documentando todas as avaliações e observações, de modo a negociar as intervenções necessárias. Para isso fazemos as reuniões com os pais e cuidadores.
O cuidado que uma escola, ou uma rede de escolas, deve ter durante esse processo é se certificar do que realmente deseja fazer e construir uma filosofia de trabalho com as famílias, de modo a não introduzir surpresas que fujam desse entendimento ou dessa linha de atuação: um trabalho de meses, que apresenta resultados mensuráveis e constantes, pode ser estremecido e dificultado pela contratação, por exemplo, de um palestrante digno e competente que, no entanto, traz uma filosofia de trabalho diferente ou conflitante com a que se escolheu.
A liderança tem que ser firme, serena e transparente. As famílias não podem ter dúvidas sobre o caminho que foi escolhido e está sendo trilhado. Um gestor que escolhe o caminho da inclusão não pode contratar profissionais que não acreditam nela ou que tenham outro tipo de solução. Não se trata de não ouvir opiniões diferentes, longe disso. Trata-se de acreditar no caminho que escolheu e de não confundir aqueles que caminham ao lado e que são a parte mais importante da jornada a vencer. O momento de ouvir o máximo de opiniões é ideias é antes da escolha de uma linha de atuação. Com o processo em andamento, esse tempo passou.
Diferentemente de muitas outras decisões que tomamos na vida, a inclusão é um trilho, não é uma trilha. Não se trata de discutir se deve ou não acontecer, trata-se de discutir como agiremos para que tenha o máximo de celeridade e qualidade, e com o mínimo de atritos e dores, porque não tenha dúvidas de que vai acontecer.
É o que estamos fazendo em Contagem, com o apoio inestimável dos estudantes, equipe educadora (não esqueça: família também!) e gestores da Secretaria da Educação, que inclusive já contaminou o prefeito, uma pessoa com deficiência que não só acredita como vivenciou a inclusão.
Dá gosto de ir e dá vontade de ficar.
Quem sabe um dia.
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