TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
No bunker indevassável do set terapêutico, as pessoas me falam coisas que sequer falariam para si mesmas. Não lido com pessoas, lido com almas, e a alma não tem e nem precisa ter máscaras sociais, então delata tudo que a incomoda, na busca de paz e compreensão. Mas ela só fala quando tem certeza de que não será julgada, apenas acolhida e acalentada, não importa quão grave seja o que vai falar.
E, embora meu pai já tivesse me falado sobre isso tantas e tantas vezes, é no aconchego do consultório que comprovo que não há o bem ou o mal. Que há amor no coração do mais desprezível ser e ódio no de um santo. Sei que pinçamos a principal característica de uma pessoa e fazemos uma classificação a partir disso, mas a pessoa não é aquela característica, é muito, muito mais. De modo que todas as almas são muito parecidas, e apenas o comportamento externo nos distingue.
Autismo não é uma palavra que designa uma doença física ou um transtorno mental. Autismo é uma palavra que designa um estado de momento. Alguns desses momentos são rápidos, outros duram uma vida toda, mas são estados. E assim como autistas têm momentos de não autismo, também não autistas têm seus momentos de autismo: um ato reflexo e necessário de se isolar do mundo para reequilibrar a alma e recobrar a homeostase.
Autismo é exatamente isso: o ato de fazer-se a si mesmo sem interferência externa.
Não importa o grupo social, profissão, cor de pele, idade, religião, identidade sexual, todos sem exceção buscam momentos de autismo, Se não o fizessem não cresceriam e ainda ficariam severamente doentes. A maioria das pessoas que chega a mim é em busca disso: 50 minutos em que pode se isolar do mundo e fazer ou falar o que quiser sem ser incomodado, julgado, interrompido. Muitas vezes nada falo, mas a pessoa sai renovada e fortalecida, justamente porque teve seu momento autista. Algumas vezes a pessoa fica calada a sessão inteira, olhando para o teto. Outras vezes dorme, ou chora. É o seu momento de solidão segura, de poder estar autista sem ser condenada.
E é interessante observar que, de todos os estratos da sociedade, o que mais se coloca em posição de autismo é a população carcerária, mesmo depois que paga sua pena e sai em liberdade. Em parte pela falta de perdão da sociedade, que o empurra para a solidão, em parte pela sua própria fuga da realidade. Não vejo mal algum em dizer que um presidiário tem ficado tempo excessivo em posição autista, sinal de que precisa de mais cuidados.
Porque 100% das pessoas tem necessidade de momentos autistas, mesmo que apenas uma ínfima parte tenha um diagnóstico, vejo como um enorme retrocesso a tentativa de criminalizar quem usa a palavra autismo para identificar pessoas que se isolam e criam um mundo particular, porque autismo é isso.
Ontem eu estive hiperativo, mas outras vezes sou depressivo, paranóico, maníaco, bipolar, esquizofrênico, louco, neurótico, autista. E gente já me chamou de autista, neurótico, louco, esquizofrênico, bipolar, maníaco, depressivo, paranóico e hiperativo. Se criminalizassem todas essas palavras, que afinal definem estados, como o autismo define, não só a vida perderia a graça, como eu perderia minha identidade. Agora, escrevendo isto, por exemplo, estou em posição maníaco/depressiva. Daqui a pouco, quando meu filho acordar e me der um beijo, talvez mude para outra, a vida é linda e é dinâmica.
Nunca fui a favor da campanha "o Brasil precisa conhecer o autismo". Primeiro porque nós, os que pretendemos mostrar, não o conhecemos, segundo porque à medida em que tornássemos a palavra mais conhecida ela seria usada de modo popular. Como aconteceu com todas as demais denominações médicas e psicológicas: quem nunca ouviu falar que "fulano é um câncer na sociedade"? Ou que, na dor de um chifre, não dissesse "sou doce demais e ele é diabético"?
Em lugar disso, peguei meu filho e fui apresenta-lo para a sociedade, porque achei que todos deveriam conhecer o autista. Para se reconhecer nele, para compreender que era igual a todos e que também as pessoas que o conheciam tinham seus momentos de autismo.
Eu vou seguir no caminho que escolhi, até o dia em que tiver que calarem minha voz com uma lei de melindres irracionais. Nesse dia encerrarei as atividades voltadas para autistas, rasgarei o Dom do Autismo e nunca mais ninguém me ouvirá pronunciar essa palavra.
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