Texto de Manuel Vazquez Gil
"Essas pessoas podem ser ensinadas, mas apenas por alguém verdadeiro e bem-humorado" - Hans Asperger.
"Eu gosto da tia Jaci, porque ela ri quando está feliz, briga quando está brava e chora quando está triste" - Luan Alejandro.
Com palavras diferentes, Hans e Luan falaram a mesma coisa e mostraram o caminho da inclusão. Indicaram também o pecado original que todos cometemos: sempre nos dizem que é preciso antecipar os acontecimentos para que autistas não fiquem nervosos e frustrados, mas não são as mudanças ambientais ou de ações que os incomoda, são as mudanças de humor das pessoas.
Em uma palavra: a imprevisibilidade.
Quando se deparam com pessoas previsíveis e verdadeiras, eles sempre sabem o que esperar. Fica fácil decifrar que algo está mal se aquela pessoa está chorando, ou que aconteceu algo bom se está rindo. Gente verdadeira é gente confiável, a quem podemos entregar nossos sonhos e pesadelos sem receio.
Pessoas assim têm o que chamo de sistema estímulo/resposta binário: numa topada, sempre vão soltar um palavrão; só sorriem quando estão felizes. Não há dificuldade nenhuma para decodificar os sentimentos dessas pessoas, então qualquer criança consegue compreender a mensagem que passam.
O pecado capital de que falo é pensar que é preciso se capacitar tecnicamente para promover a inclusão, porque incluir não depende do conhecimento específico sobre síndromes, doenças ou transtornos. Incluir depende da qualidade da relação e dos afetos entre as pessoas. É por esse motivo que crianças incluem melhor que adultos, porque ainda não aprenderam a usar as máscaras sociais para camuflar sentimentos.
Esse é o grande desafio do trabalho que faço: incluir pais e professores. Convence-los que, ao se despirem das mágoas e das hipocrisias que a sociedade de alguma forma impõe, e ao se tornarem verdadeiros e previsíveis, a criança naturalmente se encaixa e cresce, porque passa a lidar com a previsibilidade do riso, do choro e da bronca da tia Jaci, que tão bem o Luan soube descrever.
Precisamos mudar, precisamos adquirir a personalidade que Asperger colocou como condição necessária. Precisamos recuperar nosso bom humor. Precisamos parar de correr atrás de conhecimentos técnicos e começar a ser, no trato com essas crianças, apenas crianças.
Recadinho do Luan e do Han: quer incluir? Não mude o outro, mude você.
P.s.: tia Jaci foi professora do Luan no terceiro ano. Ele está no sétimo agora. Ele tem dificuldades em lembrar nomes, não lembra o nome de nenhum professor do passado ou presente, e não sabe o nome da maioria dos colegas da classe, que já estão há cinco anos com ele. O da tia Jaci ele lembra. Porque ela ri quando está feliz, briga quando está brava e chora quando está triste. Quem esqueceria alguém assim?
"Essas pessoas podem ser ensinadas, mas apenas por alguém verdadeiro e bem-humorado" - Hans Asperger.
"Eu gosto da tia Jaci, porque ela ri quando está feliz, briga quando está brava e chora quando está triste" - Luan Alejandro.
Com palavras diferentes, Hans e Luan falaram a mesma coisa e mostraram o caminho da inclusão. Indicaram também o pecado original que todos cometemos: sempre nos dizem que é preciso antecipar os acontecimentos para que autistas não fiquem nervosos e frustrados, mas não são as mudanças ambientais ou de ações que os incomoda, são as mudanças de humor das pessoas.
Em uma palavra: a imprevisibilidade.
Quando se deparam com pessoas previsíveis e verdadeiras, eles sempre sabem o que esperar. Fica fácil decifrar que algo está mal se aquela pessoa está chorando, ou que aconteceu algo bom se está rindo. Gente verdadeira é gente confiável, a quem podemos entregar nossos sonhos e pesadelos sem receio.
Pessoas assim têm o que chamo de sistema estímulo/resposta binário: numa topada, sempre vão soltar um palavrão; só sorriem quando estão felizes. Não há dificuldade nenhuma para decodificar os sentimentos dessas pessoas, então qualquer criança consegue compreender a mensagem que passam.
O pecado capital de que falo é pensar que é preciso se capacitar tecnicamente para promover a inclusão, porque incluir não depende do conhecimento específico sobre síndromes, doenças ou transtornos. Incluir depende da qualidade da relação e dos afetos entre as pessoas. É por esse motivo que crianças incluem melhor que adultos, porque ainda não aprenderam a usar as máscaras sociais para camuflar sentimentos.
Esse é o grande desafio do trabalho que faço: incluir pais e professores. Convence-los que, ao se despirem das mágoas e das hipocrisias que a sociedade de alguma forma impõe, e ao se tornarem verdadeiros e previsíveis, a criança naturalmente se encaixa e cresce, porque passa a lidar com a previsibilidade do riso, do choro e da bronca da tia Jaci, que tão bem o Luan soube descrever.
Precisamos mudar, precisamos adquirir a personalidade que Asperger colocou como condição necessária. Precisamos recuperar nosso bom humor. Precisamos parar de correr atrás de conhecimentos técnicos e começar a ser, no trato com essas crianças, apenas crianças.
Recadinho do Luan e do Han: quer incluir? Não mude o outro, mude você.
P.s.: tia Jaci foi professora do Luan no terceiro ano. Ele está no sétimo agora. Ele tem dificuldades em lembrar nomes, não lembra o nome de nenhum professor do passado ou presente, e não sabe o nome da maioria dos colegas da classe, que já estão há cinco anos com ele. O da tia Jaci ele lembra. Porque ela ri quando está feliz, briga quando está brava e chora quando está triste. Quem esqueceria alguém assim?
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