PALESTRA
A palavra 'palestra' tem origem no grego 'palaistra', “local para exercícios”, de 'palaíein', “lutar”. Na Grécia antiga, esse era o nome dado a um local onde se fazia treinamento de lutas, lançamento de disco e outros esportes. Servia também para o convívio social masculino (menina não entrava).
Da conversa sobre assuntos variados acabou surgindo o sentido mais usado em nosso idioma, que é o de “debate, aula, conferência”. E agora, ainda bem, menina também entra, embora muitas vezes 'palestra' volte a ser um local de lutas e outros "esportes".
Guardo a noção clara de que uma palestra é um momento de marketing para acelerar vendas, seja de produtos, de serviços, ou seja de ideias. O palestrante usa do seu conhecimento e poder de sedução para vender, a plateia compra ou rejeita, de acordo com o grau de convencimento a que se submeteu.
Mas nunca acreditei em palestras como meio contínuo de aperfeiçoamento, crescimento ou desenvolvimento. Uma palestra é momento, às vezes o ponto de partida de uma jornada, nunca um fim em si mesma. Por esse motivo nunca me senti à vontade como palestrante, sou intimamente um professor, não um show-man ou um camelô.
Num sábado de fim de abril do ano passado, no Teatro da Maçonaria de Belo Horizonte, eu dei uma longa palestra de oito horas sobre o Dom do Autismo. Era uma espécie de entrada para um curso de cinco dias que a seguiria. Uma moça que eu não tinha percebido, mas que era sem dúvida a mais linda de todas, veio falar comigo no fim da tarde. Disse-me que assistira inúmeras palestras antes daquela e que minhas palavras tinham introduzido um mundo novo. Que tinha sido cognitivamente desequilibrada por mim. Que precisava saber mais sobre tudo aquilo.
Então a moça passou a me seguir e eu gostei. Era diretora de uma escola municipal e entusiasta da inclusão, mas meio que patinava em meio a tantas correntes e ideias que perpassam o movimento autista. Leiga no assunto, sem parentes ou amigos autistas, ela procurava conhecer o máximo e compreender o melhor meio de incluir essas crianças no ambiente escolar. Participou de uma oficina da Abraça, conheceu o Luan, fez amizade com ele, visitou São Vicente para conhecer o projeto, participou comigo de uma capacitação sobre legislação para gestores escolares e de um curso de rapport para coordenadores, convenceu-se e foi à luta.
Faz quatro meses que implantamos o projeto na escola dela, a Domingos de Belém, em Contagem, MG. A mudança é tão radical que rapidamente essa escola entrou no radar das atenções dos gestores da educação e da prefeitura. Foi ela a escolhida para entrega simbólica dos kits escolares, com a presença do prefeito, e foi ela a escolhida para receber os livros do projeto Da Vinci. A Seduc sonha em copiar seu modelo para efetivar a inclusão como deve ser. A comunidade escolar está não só envolvida, mas entusiasmada.
O clima se fez, agora basta deixar com os atores locais, já não preciso estar tão presente.
Isso só foi possível graças à mudança de paradigma e à perseverança da bela diretora. Convencida do acerto da escolha, convenceu professores, pais e alunos com simpatia e resultados. Na última visita que fiz conversei com algumas mães. Uma me disse que brigou muito com a escola porque queria uma auxiliar para ficar com a filha. Na escola anterior a menina tinha a auxiliar. A diretora lhe pediu um prazo e, agora, essa mãe não admite mais a auxiliar: a menina cresceu, ganhou autonomia, está integrada ao grupo, fez amizades e está pronta para o sucesso.
Falei o outro dia que estou gradativamente me afastando do mundo autista e caminhando pela estrada da inclusão. Por esse motivo tenho recusado pedidos de palestras, e espero um dia zerar todas os compromissos. Há muitos falando de autismo, talvez até sejam em maior número do que os que ouvem. Há poucos falando e agindo para a inclusão. Porque inclusão exige, justamente, continuidade, uma palestra ou outra não resolve a parada e ainda nos leva para a Grécia antiga, para a "palaistra", de guerras surdas e mal resolvidas.
Estou velho demais para 'palaieins", preciso reservar minha pouca energia para trabalhar.
(e.t.: com os agradecimentos a Silvania Maria da Silva, a bela diretora que acreditou e faz acontecer).
A palavra 'palestra' tem origem no grego 'palaistra', “local para exercícios”, de 'palaíein', “lutar”. Na Grécia antiga, esse era o nome dado a um local onde se fazia treinamento de lutas, lançamento de disco e outros esportes. Servia também para o convívio social masculino (menina não entrava).
Da conversa sobre assuntos variados acabou surgindo o sentido mais usado em nosso idioma, que é o de “debate, aula, conferência”. E agora, ainda bem, menina também entra, embora muitas vezes 'palestra' volte a ser um local de lutas e outros "esportes".
Guardo a noção clara de que uma palestra é um momento de marketing para acelerar vendas, seja de produtos, de serviços, ou seja de ideias. O palestrante usa do seu conhecimento e poder de sedução para vender, a plateia compra ou rejeita, de acordo com o grau de convencimento a que se submeteu.
Mas nunca acreditei em palestras como meio contínuo de aperfeiçoamento, crescimento ou desenvolvimento. Uma palestra é momento, às vezes o ponto de partida de uma jornada, nunca um fim em si mesma. Por esse motivo nunca me senti à vontade como palestrante, sou intimamente um professor, não um show-man ou um camelô.
Num sábado de fim de abril do ano passado, no Teatro da Maçonaria de Belo Horizonte, eu dei uma longa palestra de oito horas sobre o Dom do Autismo. Era uma espécie de entrada para um curso de cinco dias que a seguiria. Uma moça que eu não tinha percebido, mas que era sem dúvida a mais linda de todas, veio falar comigo no fim da tarde. Disse-me que assistira inúmeras palestras antes daquela e que minhas palavras tinham introduzido um mundo novo. Que tinha sido cognitivamente desequilibrada por mim. Que precisava saber mais sobre tudo aquilo.
Então a moça passou a me seguir e eu gostei. Era diretora de uma escola municipal e entusiasta da inclusão, mas meio que patinava em meio a tantas correntes e ideias que perpassam o movimento autista. Leiga no assunto, sem parentes ou amigos autistas, ela procurava conhecer o máximo e compreender o melhor meio de incluir essas crianças no ambiente escolar. Participou de uma oficina da Abraça, conheceu o Luan, fez amizade com ele, visitou São Vicente para conhecer o projeto, participou comigo de uma capacitação sobre legislação para gestores escolares e de um curso de rapport para coordenadores, convenceu-se e foi à luta.
Faz quatro meses que implantamos o projeto na escola dela, a Domingos de Belém, em Contagem, MG. A mudança é tão radical que rapidamente essa escola entrou no radar das atenções dos gestores da educação e da prefeitura. Foi ela a escolhida para entrega simbólica dos kits escolares, com a presença do prefeito, e foi ela a escolhida para receber os livros do projeto Da Vinci. A Seduc sonha em copiar seu modelo para efetivar a inclusão como deve ser. A comunidade escolar está não só envolvida, mas entusiasmada.
O clima se fez, agora basta deixar com os atores locais, já não preciso estar tão presente.
Isso só foi possível graças à mudança de paradigma e à perseverança da bela diretora. Convencida do acerto da escolha, convenceu professores, pais e alunos com simpatia e resultados. Na última visita que fiz conversei com algumas mães. Uma me disse que brigou muito com a escola porque queria uma auxiliar para ficar com a filha. Na escola anterior a menina tinha a auxiliar. A diretora lhe pediu um prazo e, agora, essa mãe não admite mais a auxiliar: a menina cresceu, ganhou autonomia, está integrada ao grupo, fez amizades e está pronta para o sucesso.
Falei o outro dia que estou gradativamente me afastando do mundo autista e caminhando pela estrada da inclusão. Por esse motivo tenho recusado pedidos de palestras, e espero um dia zerar todas os compromissos. Há muitos falando de autismo, talvez até sejam em maior número do que os que ouvem. Há poucos falando e agindo para a inclusão. Porque inclusão exige, justamente, continuidade, uma palestra ou outra não resolve a parada e ainda nos leva para a Grécia antiga, para a "palaistra", de guerras surdas e mal resolvidas.
Estou velho demais para 'palaieins", preciso reservar minha pouca energia para trabalhar.
(e.t.: com os agradecimentos a Silvania Maria da Silva, a bela diretora que acreditou e faz acontecer).
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário