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O AUTISMO SEGUNDO A PALEOANTROPOLOGIA - III A CURA PELA PALAVRA

 TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Células assexuadas reproduzem-se por meio da divisão a que chamamos Mitose: um célula-mãe transforma-se em duas células-filhas perfeitamente iguais a ela mesma, se durante o processo não houver nenhum acidente. Todas nossas células nascem com tempo determinado de vida, e a mitose é o verdadeiro milagre da ressurreição e da multiplicação.
Células da pele, por exemplo, têm 40 dias de vida útil, ao fim dos quais fazem apoptose, são fagocitadas e dão lugar a outras, novinhas em folha. Significa que os carinhos que você recebeu no mês passado foram recebidos por outra pele, e que precisa de novos carinhos agora mesmo. O processo do envelhecimento é o fim do ciclo de reprodução celular, e a morte é o completa e irreversível equilíbrio, quando todas as células do corpo parar de se agitar e, finalmente, chega a paz.
Por isso eu digo que vida é desequilíbrio.
O início da mitose é provocado por um estímulo - uma luz, som, palavra, acontecimento, qualquer coisa que desequilibre a célula. O processo de divisão total leva 40 minutos, e é por isso que Freud definiu esse tempo médio para uma terapia, uma aula ou qualquer outra sessão terapêutica. Também é por isso que terapeutas curam com a palavra (o estímulo certo), e médicos precisam de medicamentos, embora haja médicos, em especial os psicossomáticos, que também usem o tempo dos 40 minutos e a palavra para curar: quando você provoca o início de uma mitose, precisa ficar com o sujeito o tempo suficiente para que ela se complete.
Você pode ler sobre isso no Livro D'Isso, de Karl Grodeck, médico austríaco do século XIX, onde ele define a medicina psicossomática moderna, embora tenha sido Hipócrates, o pai da medicina, quem a tenha criado. Ou seja, a psicossomática nasceu no mesmo parto que deu à luz a medicina.
Grodeck ensina que as doenças físicas têm origem em transtornos psíquicos, e que da mesma forma podem ser curadas. "A doença é sua, foi você que a criou, então pode ficar com ela ou pode se livrar. Se decidir pela primeira hipótese, tente ser feliz com ela; se decidir se livrar eu posso ajuda-lo".
Ele recebia pacientes do mundo todo, geralmente casos em que outros não tinham conseguido melhoras. Muitas vezes ele saía com o paciente e ia passear à beira do rio, sentava-se ao lado dele no banco da praça e passava horas conversando sobre a vida, a natureza, as águas do rio, o voo dos pássaros, a fragilidade do homem. E geralmente curava, ou melhor, convencia o paciente a se curar.
Foi inspirado no trabalho de Grodeck e nas correspondências que trocavam, que Freud postulou aquela que eu considero a melhor frase dele, lição de vida para todos nós e lema de qualquer terapeuta sério: "quando a dor de não viver for maior do que o medo de mudar, você muda".
Levo isso muito a sério, tanto os ensinamentos de Grodeck, de que a doença é sua e só você tem o direito de fazer com ela o que quiser, como o pressuposto de que você só vai se livrar dela quando perder o medo mudar. E esses dois conceitos só estão prontos quando a dor de não viver se torna insuportável.
O homem primitivo não tinha as doenças que hoje temos, nem vivia tempo suficiente para adquiri-las. Muitas são auto-imunes, provocadas pelo sistema imunológico em resposta à falta de anti-corpos, que a vida moderna e a obsessão por higiene não nos deixam adquirir. Muitas são provocadas pelos estresse da vida moderna. Muitas nem são doenças, mas comportamentos operantes, respostas à aridez da nossa sociedade.
Tornamo-nos uma legião de doentes, carentes de cuidados médicos e psicológicos, já não sabemos mais cuidar de nós. Pior: na ânsia de nos tornarmos perfeitos e imortais, interditamos todos aqueles que consideramos doentes. Temos apenas uma vida para viver, mas vivemos a vida do outro, o que significa que subtraímos a vida do outro e não deixamos que viva sua própria vida. Não vivemos a nossa e não deixamos que o outro viva a dele.
Mas, de todas as doenças, a maior delas é a que nos faz pensar que somos o modelo a ser seguido, e que todos os que não se encaixam na forma têm que ser curados. Como se não tivessem o direito grodeckiano de decidirem mudar ou não.
Assim: a doença é sua, você pode ficar com ela, se desejar, pelo menos enquanto a dor de não viver não for suficiente para vencer o medo de mudar. Mas dê o mesmo direito ao outro, essa é a fórmula da felicidade.
Para debater esse direito falarei no próximo texto sobre a Dieta Sensorial. E falarei rapidamente, depois de amanhã, no Congresso Internacional de Autismo na Vida Adulta.

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