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AUTISMO E PSICANÁLISE – XIII

 TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

A molecada me apelidou de “bacia vazia”, porque eu não falava português, e a língua não dobrava, então eu falava “bacia bacia”. Provocavam-me o tempo todo: fale bacia vazia, e eu falava: bacia bacia. E eles riam. Mas eu repetia e deixava para chorar de raiva quando estava sozinho.
As brigas no pátio, os empurrões, as quedas, os machucados, as insinuações, as buscas, as mordidas do Tadeu, os cascudos, os tapas nas costas durante o mão-na-mula, os “telefones” (se você é muito jovem, saiba que “telefone” é bater com as duas mãos em concha nas orelhas alheias. Dói e deixa tonto ao mesmo tempo), as rasteiras, as lágrimas e o bacia bacia. Lembranças de uma infância que moldou meu caráter resiliente.
Meu pai não me protegia. Ele sempre me dizia que eu poderia mudar o cenário e que para isso bastaria conviver com eles para aprender o idioma deles. Então aprendi. E um belo dia, no meio da turma, respondi bem alto: bacia vazia. Silêncio, admiração. Uma menina bateu palmas. Todos a seguiram. Os abraços que ganhei doeram mais do que todos os cascudos, empurrões, telefones e mordidas do Tadeu de antigamente, mas foi uma dor boa.
A vida de um adulto é um mosaico de fragmentos costurados com a linha das cicatrizes da infância.
Aí você cresce e esquece tais cicatrizes. Acha que os problemas são aqueles daquele dia, que não têm relação nenhuma com o passado e que basta dar-lhe uma solução prática e superficial. Depois não compreende porque eles voltam e voltam e voltam. Porque você não deu importância às cicatrizes, ou porque não deixaram que você pudesse tê-las. E não é possível costurar os pedaços sem elas, e não é possível ficar inteiro sem essa costura.
Então você cresce e tem um filho autista. Decide que ele é frágil e que precisa de proteção maior do que as outras crianças. Em vez de deixa-lo viver a vida, você o protege da vida, não deixa que a vida o contamine, entre dentro dele e faça as cicatrizes. Ele cresce não consegue costurar os pedaços, porque lhe falta a linha das cicatrizes, e vai precisar sempre de proteção extra.
E quando ele já está grandinho, mas ainda aos pedaços, tenta resolver os problemas do jeito que você acha que são resolvidos: pontualmente e superficialmente. Não remexe o passado em busca das poucas cicatrizes que podem costurar seus fragmentos. Porque, embora você o tenha protegido da vida, ele tem cicatrizes. A maior delas é a de não ter vivido por causa dessa proteção, e ela é poderosa, muito poderosa.
Só que ele não tem a chance de encontrar essa cicatriz: disseram-lhe que a Psicanálise não é boa para o autismo. Então ele fica colando os pedaços com esparadrapo das soluções fugazes, não os costura com as cicatrizes.
Toda minha vida foi moldada pela bacia vazia: até hoje ouço as pessoas e dirijo minha vida como se eu fosse uma bacia vazia: tudo que chega entra, seja na minha casa, seja na minha vida, seja na minha mente, seja no meu coração. Minha bacia nunca está cheia, sempre cabe alguém, sempre cabe algo, tudo se mistura e se renova. Ainda sou um menino com gana de vida.
Porque a bacia bacia é a cicatriz que sustenta meu ser, e ela só existe porque meu pai dizia que eu podia mudar tudo aquilo, que bastava conviver com eles e aprender o idioma deles. Meu pai não me protegeu da vida, meu pai me jogou no meio da vida.
E eu vivi. Como viveu minha filha, e como meu filho vive. Eles são fortes, são inteiros, eu também permiti que adquirissem suas cicatrizes.
Porque vida é a soma de fragmentos que só podem ser costurados com as cicatrizes da infância.

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