Pular para o conteúdo principal

AUTISMO E PSICANÁLISE - X



TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Ocupei todo o seu tempo nestes últimos dias descrevendo os principais conceitos da arte de Freud. Chegou a hora de encerrar a novela falando sobre autismo e costurando os dois assuntos.
Oficialmente o autismo é um transtorno global do desenvolvimento. Uma definição torta, tortuosa e incompleta, mas é a melhor que temos, e o jeito é trabalhar com ela, pelo menos para falar uma só língua e reduzir os ruídos que são comuns no meio. Vejamos então o que é um desenvolvimento global normal para depois definirmos o que é um transtorno nessa normalidade.
O desenvolvimento infantil se dá nos três grandes eixos humanos: o físico (coordenação motora), o cognitivo (as famosas fases descritas por Piaget) e o psíquico (as frases de Freud, que citei aqui). Os três seguem lado a lado, um dando suporte ao outro e provocando-se mutuamente, e há uma curva universal esperada, obtida da média da população mundial.
Dessa maneira, até os dois anos espera-se que a criança esteja andando (físico), falando (cognitivo) e na fase oral (psíquico). Aos cinco anos, ela deve estar correndo, equilibrando-se, pulando corda, andando de bicicleta, com o movimento de pinça adquirido (físico), construindo frases, no pré-operatório (cognitivo) e com o controle dos esfincteres concluído, na fase anal (psíquico). Aos 8 anos, deve ter adquirido todas as coordenações amplas e finas (físico), ter a noção de reversibilidade e prontidão para ler e escrever, no operatório concreto (cognitivo) e estar na fase de latência (psíquico).
O objetivo desse desenvolvimento triplo é construir uma representação do corpo na mente. Aos oito anos ela já está pronta, mas ainda não tem movimento, daí a criança parecer desastrada, sofrer e provocar muitos acidentes: as pernas dela correm, os braços se mexem, mas a representação mental é estática, não acompanha seus movimentos. Apenas no início da puberdade, aos doze anos, a representação ganha movimento e a criança deixa de ser criança, estando pronta para a entrada na vida adulta.
Autismo só é autismo quando afeta os três eixos simultaneamente. Daí a denominação de “global”. E um transtorno nem sempre é um atraso, mas um desvio da curva esperada, para cima ou para baixo. Colho o exemplo do meu filho: aos seis anos, ele estava na primeira fase física, sem controle das pernas, na terceira fase cognitiva, das operações concretas, e na fase anal incompleta, ainda sem controle dos esfíncteres. Ou seja: um desvio total, com o físico e o psíquico atrasados e com o cognitivo acima da curva esperada.
A partir dessa descrição, você já pode perceber que não é possível compreender o autismo sem a ajuda dos fundamentos da Psicanálise. E, se você não havia entendido até agora, foi devido à insistência de varrer Freud pra baixo do tapete: por que pedir ajuda a uma ciência que falou que autismo é causado por mães geladeiras, não é? Não queremos nem ouvir os argumentos dos que odiamos. 
Como afirmei no primeiro capítulo desta saga, bastou uma mentira espalhada aos ventos para fechar nossos olhos e nossos ouvidos a todos os argumentos que possam chegar, mas não é essa mentira que mantém nossos olhos fechados, já que sabemos hoje que é mentira. Eu inclusive acho, a despeito de ter esclarecido muitos pontos, que aqueles que pensavam dessa maneira continuarão pensando, e não tenho a mínima pretensão de mudar seus julgamentos. É mais a nossa pressa por resultados e nossa adoração pelas aparências que nos afasta de uma linha de tratamento que não promete modelar-nos do jeito que queremos.
Ocorre que a representação do corpo na mente é inconsciente. Embora a maioria dos nossos movimentos sejam automáticos e regulados pela medula, a resposta aos estímulos externos tem que ter a velocidade do inconsciente. Imagine-se pisando num cigarro aceso, e o caminho que teria que percorrer o estímulo até você sentir a dor e conscientemente tirar o pé, e perceberá que a reação instantânea é na velocidade do inconsciente.
E como essa representação do corpo na mente segue linha diferente da curva média nas crianças com transtorno global do desenvolvimento, entre os quais está o autismo, o psicanalista pode muito bem ajudar a construção e a regulação aos níveis do desenvolvimento esperado. Só que é um caminho relativamente longo, não tem a velocidade da regulação de sintomas que o behaviorismo consegue.
A diferença: enquanto o behaviorismo modula sintomas, a psicanálise constrói sujeitos. Como você já sabe, extinguir sintomas é bom para as aparências, mas não toca nas causas. Seria como deixar o vírus vivo no organismo, mas remover a febre. A psicanálise prefere lidar com o vírus, mesmo que a febre se mantenha até que o invasor seja aniquilado.
Ajudar pessoas a se aceitar e aceitar o próximo é missão do psicanalista. Lidar com a angústia que nos causa a febre é um problema nosso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PRECONCEITOS COTIDIANOS

Texto de Manuel Vázquez Gil A maioria de nós vive no campo das ideias: temos convicções de como fazer, mas não arregaçamos as mangas para mudar o que consideramos errado. Não nos infiltramos no cotidiano para transformar o mundo, preferindo terceirizar para o Estado, a escola, o outro, enfim. Constituímos e concretizamos juízos prévios que, por não serem postos à prova e permanecerem dentro de nós, não podem ser confirmados ou refutados na vida diária. Por não serem confrontados,  deixam de ser juízos para se constituírem em preconceitos.  Segundo Heller (O cotidiano e a história, ed. Paz e Terra, 1989), "o afeto do preconceito é a fé" (por fé, compreenda fé em qualquer coisa), "a intolerância emocional é uma consequência necessária da fé" e "crer em preconceitos nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores". Contra a tirania da fé, afeto que acalanta o preconceito, existe um vacina: a confiança no saber. E a confiança no sabe...

Meus direitos, seus direitos, nossos direitos

Texto de Manuel Vázquez Gil Você deve se perguntar às vezes porque, se todos queremos as mesmas coisas, brigamos tanto. Direitos, por exemplo, é um bem desejado e quase nunca atingido. Será que entendemos o que são direitos e quais, entre tantos, são nossos, e quais não são? Onde o limite? Pois é, o limite está exatamente na nossa cabeça, em como vemos e pensamos o mundo. Vou ajudar você: podemos dividir as pessoas, em relação a como veem os direitos, em trê s grades grupos: 1 – Utilitaristas são aqueles que acham que uma boa ação ou uma boa regra de conduta são caracterizadas pela utilidade, ou seja, pelo prazer que podem proporcionar ao outro e à coletividade; 2 – Igualitaristas são aqueles que acham que deve haver igualdade absoluta em todas as áreas: política, social, cívica. Para estes, a igualdade não é relativa, mas absoluta; 3 – Libertários são os que maximizam a autonomia e a liberdade de escolha, e o julgamento individual. Focam na propriedade privada e na redu...

Matéria sobre a LBI e o Aprendendo a Aprender

O projeto Aprendendo a Aprender é o filho direto do Dom do Autismo: com o tempo, compreendemos que a inclusão escolar é para todos, e elaboramos um projeto que beneficiasse o ambiente, conforme entendimento das diversas leis que regem o assunto. A deficiência não é da pessoa, mas do ambiente. É um impedimento que só acontece se a pessoa com autismo encontrar barreiras físicas ou de atitude que a impeçam de usufruir os mesmos direitos de todas as demais.  O Aprendendo a Aprender é um projeto de inclusão, e inclusão é o resultado do esforço coletivo para remover obstáculos. DMA Psicopedagogia