TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
A primeira verdade a ser dita é: a Psicanálise não sabe o que é o autismo, quais são suas causas nem tem ideia de como curar autistas.
A segunda verdade a ser dita é: ninguém sabe. Nem a Psicologia, nem a Neurologia, nem a Psiquiatria, nem o senso comum ou qualquer outra área do conhecimento humano.
Igualadas no nível de ignorância, todas elas podem reivindicar alguma porcentagem de valia para reduzir os danos que o autismo causa no indivíduo ou para melhorar sua qualidade de vida. A Psicanálise, porém, tem a oferecer mais dois bônus interessantes: a) melhorar a qualidade de vida de toda a família, através análises elaboradas do desenvolvimento da psique infantil e b) explicar detalhadamente o funcionamento do inconsciente e sua influência sobre as relações humanas.
E isso é interessante, porque não só o inconsciente é dono de si mesmo, nada o controla ou modula, como também o inconsciente não é autista. Todas as características, comportamentos e sintomas do autismo estão presentes no ambiente transicional que interliga o Ego e o Superego, e o autista é, por excelência, representante quase exclusivo de um Superego forte e presente.
Embora não possa ser controlado, há forma sutis de se aproveitar do poder do inconsciente, a que chamamos Id. A propaganda subliminar, em que a mensagem passa rapidamente diante dos olhos é um exemplo disso: ela age mais, vicia mais, exige mais do que qualquer outra propaganda porque, não dando tempo de captação pelo consciente, foge das proibições do Superego.
(Para melhor compreensão, repito aqui, de modo simples: considere que o Id é a Criança, agindo pelo princípio do prazer, sem filtros para o perigo ou a proibição; que o Superego é o Pai, agindo pelo princípio do dever, da lei, das regras, que reprime os desejos do Id; e que o Ego é o adulto, que negocia entre os dois primeiros para chegar a uma solução pacífica e harmoniosa. Lembre-se também de um princípio importante: só existe o Ego onde é necessário, ou seja, onde exista conflito entre Id e Superego; para isso, é necessário que existam os dois últimos para que o Ego se forme. O Id é 100% inconsciente; o Superego é 100% consciente; o Ego é parte consciente e parte inconsciente, até porque tem que “conversar” com os dois).
Nascemos puro Id, e assim nos mantemos durante os primeiros anos de vida, até que a cultura nos imponha suas regras e leis. Sob esse prisma, independentemente de deficiências, o Id está preservado nos primeiros anos da nossa vida. Calcula-se que mais de 90% da mente seja inconsciente, um baú enorme que guarda todos os conhecimentos que adquirimos durante a vida, a maioria dos quais sequer percebemos que adquirimos. Ali se mantém também os traumas, presos a sete chaves para evitar sofrimento ao hospedeiro.
Embora cientistas tenham tentado algumas fórmulas engenhosas, ainda não se descobriu método mais eficiente, fiel e rápido de acessar o inconsciente com segurança e controle do que a Psicanálise. Ora, se o Psicanalista pode acessar o inconsciente, e se o inconsciente está preservado, ou seja, não há o Id autista, não deveria haver dúvidas de que de algum valor a técnica psicanalítica serviria.
Conto uma experiência: na década de 1960 Robert Rosenthal, professor de Psicologia da Universidade da Califórnia conduziu um interessante teste, onde os alunos de uma escola básica foram submetidos a uma prova. Rosenthal nem conheceu os alunos nem corrigiu as provas, limitou-se a “sortear” uns poucos alunos e avisar aos 18 professores da escola que esses alunos foram excepcionalmente bem, que tudo indicava que teriam desempenho acima da média nos anos seguintes.
Ao fim do ano, os alunos “gênios” haviam atingido uma média de desempenho 3,8 pontos acima da média dos outros. Os “gênios” das primeiras séries foram mais alto: 15,4 pontos acima da média! Isso se deveu à expectativa dos professores sobre os alunos escolhidos: inconscientemente, eles deram mais atenção e estímulo aos alunos que consideravam mais aptos para o aprendizado.
Esse tipo de expectativa pode ser criado sobre professores e sobre pais, também em relação ao autismo. Minha própria experiência clínica e escolar mostra que sempre que os convenci da potencialidade da criança, havia um desenvolvimento maior. Acho que já me ouviu falar sobre minhas atividades: elas não são nada diferentes de todas as demais, não levo nenhuma teoria que não possa ser encontrada nos livros, não invento nada.
A diferença que faz com que meus projetos tenham alto grau de sucesso está na minha presença: eu acredito nas pessoas, desde a criança até a escola, passando pelos pais. Eu cuido para que minhas palavras e ações sejam verdadeiras e exatas, mas sejam carregadas de expectativas positivas. Em muitas ocasiões, faço isso de modo que sejam dirigidas diretamente ao Id, sem interferência das sanções do Superego. Em conclusão, são mais poderosas e constroem um Ego mais fortalecido. O resultado são crianças autistas cada vez mais autônomas e felizes.
É disso que quero lhe falar: da Psicanálise e de como o acúmulo de saberes que detém podem ajudar não na compreensão do que é autismo, não na elucidação das causas do autismo, muito menos na cura do autismo, mas no esforço de formar indivíduos e famílias felizes com o que são e com o que têm.
Isso é Psicanálise, segundo Freud: a cura pelo amor.

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