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AUTISMO E PSICANÁLISE – VII



TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Melanie Klein foi uma figura fascinante e infelizmente pouco conhecida entre nós: mãe de muitos filhos procurou Freud para fazer terapias e acabou psicanalista. O mestre reconheceu nela perspicácia, inteligência e sensibilidade para assumir um lugar atrás do divã, e ela não decepcionou. Partiu dela a iniciativa, paralelamente à de Anna Freud, de desconstruir um dogma proposto por Freud, o de que não seria possível psicanalisar crianças.
A construção teórica de Melanie é única, e só poderia sair da cabeça de uma mulher/mãe. Qualquer homem que ousasse postular tais teorias seria chamado de nomes pouco recomendáveis em espaços públicos, porque elas colocam em questão orgulhos femininos.
Por exemplo: ela demonstrou que a criança vê duas mães, e chamou a isso seio bom e seio mau. Um que amamenta, mata a fome e a sede, dá a vida e o aconchego, e outro que se afasta, que abandona, que deixa só. Nessa perspectiva, a criança estaria no que Melanie chama de posição esquizo/paranoide. Em palavras simples, para a criança a mãe é esquizofrênica, visto que são duas, o que provoca uma espécie de paranoia na cabecinha infantil.
Se tudo der certo, em pouco tempo a posição muda no momento em que a criança percebe que a mãe é uma só, e que o seio que alimenta e o que abandona pertencem a uma só pessoa. Nesse momento, muda a posição para maníaco/depressiva: agora a criança enxerga a mãe como a maníaca que verte regras atrás de regras, ordens atrás de ordens, não para de jorrar, e então fica depressiva, em parte porque julgou errado as tais “duas mães”, em parte porque os excessos maníacos da mãe não dão descanso.
Agora imagine de eu fosse o autor de tais teorias...
Da compreensão adulta desses processos surgem atividades que podem diminuir a angústia tanto da criança paranoica quanto da criança depressiva. Esse processo, claro, envolve a mãe “esquizofrênica” e a mãe “depressiva”, cuja missão seria usar ferramentas simples para melhorar as posições. Essa ferramenta, ainda de acordo com Melanie, é o jogo, a brincadeira. Brincando a criança constrói um mundo menos ácido e difícil. Brincando a criança fica mais feliz.
Daí a psicoterapia com crianças privilegiar o jogo e a brincadeira: constrói-se no consultório a relação da criança com o mundo de maneira lúdica e pacifica-se as relações destrutivas oriundas das duas posições originais. Num jogo é possível visualizar que as pessoas têm muitos papeis, o que não necessariamente significa que sejam muitas pessoas numa só. A própria criança irá representar diversos papeis, mas continuará sendo apenas uma.
A dificuldade não é com a criança, mas com os pais: o psicanalista leva muito a sério a norma de não deixar que um terceiro interfira na relação com seu cliente, mesmo que este seja uma criança. O cliente é a criança, a queixa dela é o que importa e é trabalhado e é a serviço da sua construção e felicidade que o profissional trabalha. Essa postura causa ruídos com os pais.
Eu acho que nosso problema com o mundo são as aparências. Até por isso temos mais preocupações com os sintomas, que todos percebem, do que com as causas, que estão escondidas e nos preservam dos olhares alheios. Se não nos preocupássemos com aparências aprenderíamos que sintomas são benéficos e desejados, e que têm utilidades múltiplas. Eliminando o sintoma, eliminamos também o alarme e o início de combate ao incêndio.
Como o alvo do psicanalista é o afeto interno, não o sintoma, fugimos dele. O problema de se esconder é não ser encontrado. Ou, às vezes, nem se encontrar.

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