TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
A humanidade deve muito a Freud e à Psicanálise. Foi ele que criou os alicerces e emprestou argumentações a muitos movimentos que fundaram a sociedade moderna: suas descobertas sobre sexualidade infantil foram o ponta pé inicial para os direitos da criança e do adolescente; os estudos que desenvolveu sobre histeria, o mal da época que adoecia e mutilava mulheres, mostraram que bastava a liberação feminina para que o problema fosse resolvido; a descoberta do inconsciente e seus mecanismos colocou o todo poderoso homem no lugar subalterno de não ser capaz sequer de comandar a si mesmo.
Não haveria terapias psicológicas como as de hoje. Mesmo behavioristas seguem as leis de Freud e alguns conceitos seus. Antes do mestre, a Psicologia se resumia a pesquisas e experimentos, foi ele que criou o atendimento em consultório e definiu o tempo necessário para o bom atendimento. Muitas escolas surgiram e muitas linhas foram criadas, algumas tentando negar Freud, mas nenhuma delas ainda pagou as dívidas que tem com ele.
A vida cotidiana dos povos ocidentais está contaminada até os ossos de pressupostos da Psicanálise. Falamos sem perceber conceitos de Freud, sabemos de cor frases dele, recorremos muitas vezes ao “Freud explica”, pensamentos dele viraram lugares comuns.
E, destarte tudo isso, odiamos Freud. Talvez porque ele nos tirou a arrogância da superioridade, nos fez descer do trono e mostrou nosso lado sombrio. Talvez porque tenha descortinado caminhos que não gostamos de trilhar. Talvez porque tenha valorizado a mulher e sua sexualidade numa sociedade misógina e preconceituosa. Talvez porque tenha trazido à luz a verdadeira criança. Talvez por tudo isso, o certo é que odiamos Freud e a Psicanálise, e encontramos formas de extirpa-los da nossa vida, embora isso não seja de todo possível.
Comecei este projeto contando como uma mentira – a de juntar um falsificador que se dizia psicanalista à teoria da mãe fria, e de não avisar ninguém de que o sujeito não era psicanalista nem criou a teoria – fez o autismo perder uma linha de investigação e atendimento preciosa.
Uma pena, porque eu encontrei meios de usar a Psicanálise no autismo, não só em atendimentos, mas nas palestras e cursos que dou, e tenho sido extremamente bem sucedido. Pessoas que me ouvem, mesmo em palestras curtas, saem melhor e mais leves. Com um simples quadro sinóptico, onde insiro Freud, conseguem entender num relance o que é autismo e como lidar com ele. E tenho mostrado os resultados práticos do Dom do Autismo, que cuida de quem cuida e respeita o direito da criança à sua infância. E que tem cruzado fronteiras para poder mostrar que não é só meu filho, ou os clientes da clínica, ou os alunos da escola do meu filho, mas pode ser com muitas outras famílias.
Até num projeto pedagógico de inclusão, o Aprendendo a Aprender, coloco as cores fortes da Psicanálise e a coisa flui, alunos se adequam, professores crescem e se humanizam, famílias se inserem e o ambiente se torna mais leve e amoroso.
Eu poderia escrever tudo o que tenho escrito nesta série e escolhido um outro título. Se tivesse feito isso, as curtidas e comentários seriam mais numerosos e generosos. Mas eu escolhi Autismo e Psicanálise propositalmente, sabendo de antemão que algumas pessoas que sempre me brindam com a bondade da leitura iriam ler, mas o preconceito estrutural contra a Psicanálise iria segurar o dedo na hora de curtir. Um preço a pagar calculado e necessário: não há outra maneira de cuidar de um autista a não ser despindo-se de todo e qualquer preconceito, e já passou da hora de todos nós escutarmos todos aqueles que querem falar conosco.
Uma criança autista que vive com pais ou professores preconceituosos tem poucas chances de se recuperar e evoluir. Aquela cujos pais e professores são evoluídos evolui também. Porque o preconceito - qualquer preconceito - obstrui caminhos, em especial os caminhos dos que não sabem lidar com preconceitos.
Só há uma ação que acalma os sintomas autistas: a redução do estresse. A Psicanálise faz isso, na medida em que respeita o outro como ele é e ajuda-o a ser feliz com o que tem. Por isso concluirei esta série, porque é um projeto e deve ser total, embora seja humanamente impossível esgotar o assunto Psicanálise.
Também porque, para a Psicanálise, quem não ama adoece, mas amar não é um sentimento, amar é uma ação.
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