TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Cassiana e Adolfo estão com um problema insolúvel, causado pelo conselho fofo do “bem-vindo à Holanda”. Receberam o diagnóstico de Angélica recentemente, e o médico contou-lhes a história, anexando o conselho de que deveriam “matar” o filho esperado e aceitar a menina que receberam.
Dificuldade principal: o tal filho esperado nasceu, até com o sexo desejado, e alimentou seus sonhos por quase dois anos. Como todo bebê pequeno, mamou e chorou. Sorriu e, mais tarde, andou. Tinha os cabelos da cor que sonharam e cortava seu sono durante as madrugadas. Usava fraldas, chupeta, mamadeira e ia ao pediatra como todas as outras crianças na sala de espera. Magrinha, podia muito bem vir a ser a primeira bailarina do Municipal.
Mas agora o médico lhes diz que deviam mata-la, porque ela só existia no seu imaginário. E que deviam aceitar a menina que encheu a casa e a vida de estereotipias. Já não podiam mais deixa-la andar nas pontas dos pés, de preferência deveriam contratar um especialista que extinguisse esse ritual não funcional. Porque bailarinas andam na ponta dos pés, mas autistas não podem.
Esqueçam Roma e Veneza, vocês têm que apreciar as belas tulipas e os imponentes fiordes que o destino colocou diante de vocês.
Adolfo e Cassiana se sentiam perdidos. Menos por Angélica, e mais pela impossibilidade de fazer o tal luto. Sentiam-se culpados por alimentar sonhos que o especialista mandou sufocar. Vieram buscar a minha ajuda, e eu lhes disse que talvez não pudesse ajuda-los, porque o luto exige coisas concretas que nos liguem à perda.
Uma foto, uma chupeta no canto de uma gaveta, um lençol manchado, uma camisa ainda com o cheiro da pessoa que nos deixou, a lembrança de uma viagem, uma cadeira na ponta da mesa, uma caneta, um cinzeiro, no limite um túmulo onde possamos depositar flores. Algo que possamos tocar, sentir, cheirar, e que nos vá dando a certeza de que a pessoa que esteve conosco não está mais. Aos poucos vamos nos desapegando dos objetos e nos apegando às lembranças boas que os objetos nos trazem, e um dia percebemos racionalmente que já não temos aquela pessoa conosco, concluímos o luto e seguimos em frente.
Mas como matar aquele que jamais existiu? Não fazemos luto do amigo imaginário, simplesmente crescemos e descobrimos que existem inimigos reais mais perigosos ainda. O que nossa mente cria ela mesma pode extinguir, mas sem o longo e doloroso processo do luto.
Acontece que um filho esperado e amado cresce no ventre e na mente. Ele é real no ventre, mas não na mente. Jamais será como imaginado na mente, embora esteja crescendo no ventre. Aí, quando alguém diz que a rota foi alterada, e que vai ter que matar o filho da mente, está dizendo que tem que matar o filho que tinha no ventre. Porque, para a mente, não eram dois filhos, mas apenas um. Que nasceu e, por quase dois anos, foi exatamente aquele que a mente criou.
Cassiana e Adolfo vão mesmo precisar de muita ajuda. Depois de compreender o drama que tomou conta deles, expliquei-lhes que talvez eu pudesse ajudar, mas tinham que tomar o avião de volta pra casa, não podiam ficar na Holanda. Quando chegassem, não devia nem desfazer as malas, deviam pegar Angélica e partir para a Itália, os três.
Prometi que eu mesmo me encarregaria de comprar as passagens e garantir que não haveria desvio de rota. E que, durante as sessões, eu seria seu cicerone e os levaria a conhecer as belezas do país que tanto sonharam conhecer. E que, daquele dia em diante, mudaria de nome, de Itália para Angélica.
Sem morte, sem luto, sem perdas. Apenas e tão somente com descobertas.

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