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AUTISMO E PSICANÁLISE – V



TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

As premências da vida moderna fizeram de nós seres apressados que tiram conclusões superficiais. Já não guardamos o tempo necessário para virar os olhos na nossa direção. Não temos tempo, dizemos, e nem percebemos que o tempo da reflexão nos mostraria que estamos usando nosso tempo para não ter tempo.
Você pode chamar a isso de vida moderna. Mas pode também chamar de fuga. Porque comparamos para compreender as diferenças entre o grande e o pequeno, o gordo e o magro, a alto e o baixo, o dia e a noite. Nossas referências sempre se ancoram numa comparação, o que significa que somos relativos e, em sendo relativos, não somos inteiros.
Pensamos, pensamos e pensamos, então não existimos. Porque só existimos, só somos verdadeiros, no único lugar da mente que não pensa, o inconsciente.
Então, podemos ser mais ou menos felizes sem mudar nada na nossa vida, bastando-nos mudar os temos de comparação. Essencialmente, isso resolve o que? Responda você.
Você já parou para pensar que, mais do que criar termos patológicos para definir comportamentos naturais e até desejáveis, nós temos nos assustado com eles? Ajudo a pensar: nesta vida moderna de que estamos falando, a agressividade é componente crucial para o sucesso, tanto na vida profissional quanto na afetiva. Sabemos disso, educamos nossos filhos para a competição. E a agressividade é natural do ser humano, usada para sobreviver mais do que para competir, mas também para competir. Em lugar de compreender e canalizar, nós criminalizamos e patologizamos o que de antemão sabemos vai fazer a diferença num futuro próximo.
Falávamos de comparações, então lá vai: as grandes tragédias humanas foram e são causadas por pessoas introvertidas, caladas, solitárias. A incapacidade de agredir, seja com palavras, seja com ações, volta-se contra o sujeito e alimenta o monstro da depressão. Nunca sabemos quando a bomba irá estourar, então estoura: um suicídio, alguém que invade uma escola e mata todo mundo, um menino-bomba que se explode no estacionamento cheio, um abandono dócil ao domínio da depressão, da bulimia, do desespero que corrói e mata. Sempre perpetradas por pessoas quietas, fechadas em si mesmas.
A agressividade, ao contrário, salva. Principalmente porque é um sintoma visível e aumentado, que não se camufla. E que, acima de tudo, incomoda a todos em volta, portanto pede soluções.

Chamamos de libido à energia vital de um ser humano. Energia não pode ser contida ou represada, toda energia produzida tem que ser consumida. Mas pode ser modificada no momento do consumo: esportes, leituras, sexo, jogos, brincadeiras, toda atividade física ou mental usa a libido para se realizar. Inclusive a agressividade que, em sendo energia, não pode ser contida. Toda energia represada causa uma doença. Essa doença será a responsável por reduzir a libido produzida, então um doente é aquele que produz menos energia do que a necessária para a vida.
De todas as doenças, a mais terrível é a depressão. Porque, no limite, ela zera a libido e a pessoa se deixa morrer sem luta. A agressividade é o contrário: a alta produção da libido, que faz com que o sujeito tenha energia demais. Que, você já sabe, tem que ser gasta.
Há duas maneiras de se equilibrar a conta: produzindo menos, através de mecanismos químicos que as drogas emprestam, ou gastando mais, através de atividades físicas e mentais que a vida dá de graça. Como a primeira linha é mais rápida, prática e desgastante para nós, temos optado por ela. Outras culturas optam pela segunda e criam gerações mais saudáveis e bem resolvidas, porque é natural, e a natureza é sábia.
Sempre me incomodei com crianças quietas, talvez porque eu tenha sido uma delas e tenha sofrido as consequências disso. Levei alguns anos para ensinar meu filho a ser mais ativo e bagunceiro, menos responsável e ordeiro. Ele era um adulto e eu queria uma criança. Preocupava-me a baixa libido dele, e buscava atividades que aumentassem a produção de energia, mesmo que isso resultasse em mais trabalho para mim. Em certa medida, consegui e ele é mais ativo hoje.
A psicanálise faz isso para você: ensina o que é a libido e como essa energia vital é necessária e útil. Mesmo quando a produção é alta, porque é uma garantia de vida longa e de maior possibilidade de sucesso futuro. E o que fazer quando passa dos limites, a ponto de prejudicar quem está em volta? Encontrar maneiras de explicar à criança que a agressividade dela é uma característica natural, que ela não é doente, apenas muito ativa, e tem que descarregar toda essa energia em coisas mais úteis e menos danosas. Mesmo que, por exemplo, você dê a ela um boneco ou uma almofada onde pode descarregar a energia.
Compreender e verbalizar: sei que você está com raiva e quer bater, mas é errado bater num colega. Então vou lhe dar essa almofada pra você esmurrar sem se machucar e sem machucar alguém, até se acalmar.
Tive um cliente que compreendeu o que lhe disse e comprou um saco de pancadas, daqueles de boxeador, para o filho hiperativo e agressivo. O menino é um moço agora, e está competindo na tentativa de se classificar para a Olimpíada.
Sempre brinco sério sobre isso: sabe aquele filho ideal, que chega em casa, tira os tênis e coloca no lugar, vai para o banho, coloca as roupas sujas no cesto, faz a lição de casa sem precisar ser lembrado, deixa a cama arrumadinha e varre o quarto, ajuda você com a comida e lava a louça e compreende quando você lhe diz que não vai ter festa de aniversário porque o dinheiro anda curto? Leva depressa lá no consultório, ele precisa de um tratamento urgente.

Semana passada conversei particularmente com um menino, na escola, porque ele tinha dado um soco na parede da sala. É um desses meninos com histórico de agressividade que vimos trabalhando dentro dessa linha da conscientização. Ele me disse: "o professor me irritou, mas eu não podia bater nele nem mandar tomar no cu. Então soquei a parede". E a mão, já sarou? "A mão parou de doer quando passou a raiva".


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