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AUTISMO E PSICANÁLISE – VIII



TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

“Não desejo suscitar convicções, o que desejo é estimular o pensamento e derrubar preconceitos” - Freud
Uma das maiores contribuições de Freud (eu considero a maior de todas) para a humanidade foi sua teoria da sexualidade, onde demonstrou que o sexo não serve apenas para reprodução. Eu acho que os movimentos feministas e da diversidade não agradecem o suficiente àquele que possibilitou seu surgimento e emprestou a força do nome e das pesquisas às suas causas.
Porque Freud percebeu cedo que a histeria, o mal daquela época, que adoentava mulheres, era causada pela repressão sexual a que elas estavam submetidas. Falar em histeria pode remeter à figura da mulher descontrolada emocionalmente, mas o problema era muito maior: a histeria de conversão provocava males sérios. Mulheres paravam de andar, de falar, ficavam surdas, tinham gravidez psicológica, a vida destruída. E a causa era muito simples de combater, e ao mesmo tempo difícil demais. O gênio e a coragem de Freud mudaram a história e libertaram as mulheres. No rastro, deu argumentos fortes aos movimentos de gênero.
Antes de Freud, sexo era prazer para os homens adultos e obrigação para as mulheres. Depois de Freud, sexo passou a ser um instinto natural e saudável, fonte de prazer para homens e mulheres. Mais: ele demonstrou que a sexualidade está presente desde o nascimento, quiçá até antes dele.
Ele chamou a isso “sexualidade”, a força vital que move o organismo e é responsável por todas as nossas atividades físicas e mentais. Inclusive pelo sexo em si. E determinou as fases do desenvolvimento infantil, com as zonas de prazer perfeitamente delimitadas:
1 – a fase oral vai até os 2 anos. É quando o prazer está circunscrito à região da boca, por onde a criança absorve o alimento e a vida. 
2 – a fase anal, quando começa o controle esfincteriano, corresponde a uma idade de controle. A criança extrai prazer ao reter e soltar o esfíncter, e começa a discriminar o ato passivo/ativo, o prender/soltar. É uma fase egoísta, que se estende até os 4/5 anos, e que é usada pela criança para controlar o ambiente e as pessoas: o cocô é a primeira obra que ela consegue realizar sem o controle do outro, e ela vive intensamente o prazer da autonomia.
3 – a fase fálica, do reconhecimento das diferenças sexuais, vai até os 7/8 anos. É um período de curiosidade sobre os órgãos sexuais, de manipulação e questionamentos, e de terror para pais e educadores, inseguros quanto às ações e respostas. Abro um parêntesis:
Abrangendo as fases anal e fálica, o complexo de Édipo está internamente sendo resolvido. Leia estas palavras com cuidado, porque o processo é todo inconsciente. Ao reconhecer as diferenças sexuais, a criança se identifica com o genitor do sexo contrário e passa a competir com o do mesmo sexo. Meninos se apaixonam pela mãe e entram numa disputa com o pai para ficar com ela. O objetivo é eliminar o concorrente. Como não conseguem, ao fim da fase fálica resolvem o problema identificando-se com o pai. Podem, dessa maneira, pacificar as emoções sem serem condenados pelo tabu ancestral do incesto. Com as meninas o processo é semelhante, com sexos trocados.
4 – resolvido o Édipo, a criança entra numa fase de latência, onde sublima a sexualidade, a curiosidade cessa, o pudor começa a surgir e ela dedica a força da sexualidade ao aprendizado formal. Essa fase vai até os 12 anos, quando chega a puberdade e a enxurrada de hormônios traz de volta a sexualidade, com toda a força que conhecemos e que já nos torturou.
Se essas fases forem bem resolvidas, o prazer sexual, que se fixava em pontos específicos do corpo passa a se fixar em todo o corpo, e a pessoa está pronta para uma vivência sexual plena e prazerosa, livre de culpas e de pecados. Se, por qualquer motivo, a pessoa não resolveu a contento uma dessas fases, terá sérios problemas de relacionamento futuro e não obterá o prazer que o sexo pode proporcionar.
Resolver essas fases, infelizmente, depende menos da criança e mais dos adultos que o cercam e cuidam. São as repressões que impedem o desenvolvimento normal, e as repressões têm uma fonte: a ignorância de alguns pais e educadores sobre o tema.
Essa ignorância não tem uma fonte, mas um lapso de conhecimento e cultura: o preconceito que ainda vigora sobre Freud e a Psicanálise. Que pode ser resolvido rapidamente: Freud é claro e simples de entender, além de escrever de forma admirável e fluida. 
O desenvolvimento sexual normal e a felicidade futura dos nossos filhos depende de nós e de simples leituras. Só é preciso querer.

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