TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Como toda área do conhecimento, também a Psicanálise passou por momentos de estudos e aperfeiçoamentos. O próprio Freud avisava que não era um prato pronto para ser consumido, mas um edifício em constante construção. Sua primeira tópica (Consciente/Pré-Consciente/Inconsciente), por exemplo, foi rapidamente substituída pela segunda (Id/Ego/Supergo), que se mostrou mais adequada aos conceitos do mundo novo que Freud descortinava.
Karl Grodeck, amigo de Freud, teve importância fundamental nisso. Médico reconhecido no mundo todo, ele recebia pacientes que outros médicos não conseguiam curar. Admirador de Freud, ele refundou a Psicossomática, linha de cuidados original proposta por Hipócrates, o pai da medicina, e que defende que as doenças físicas têm origem psíquica. Grodeck não olhava apenas para a doença, ele cuidava do doente, às vezes fechando o consultório e passeando o tempo que fosse necessário pelas margens do rio com seu paciente.
Grodeck escrever “O Livro d’Isso”, onde descreve o Inconsciente muito semelhante ao freudiano, e chamou a atenção para esse mundo tão desconhecido. Foi o gênio de Freud que criou técnicas para acessa-lo e investiga-lo, mas a amizade e a troca de experiências com Grodeck, embora a história não registre, foi muito importante.
Também nas intervenções houve avanços. Freud experimento a associação livre de palavras, onde o terapeuta diz uma palavra e pede que o cliente diga outra correspondente, e tentou a hipnose, que logo abandonou por considerar que a cliente tem que estar completamente consciente, sem interferências, para que a terapia seja eficaz. Finalmente, encontrou a escuta flutuante, um modo fascinante de investigar elaborações inconscientes.
Quando você vai assistir algum evento, seu cérebro se prepara para o assunto. Durante o evento, ele joga para o inconsciente palavras, frases ou ações que não tem a ver como assunto proposto. É uma maneira econômica, que o cérebro encontra para melhor aproveitamento. Por isso acreditamos, conscientemente, que algumas pessoas, como autistas, hiperativos ou desatentos, não conseguem aprender. Na verdade, eles têm um cérebro com o mesmo mecanismo de todos os outros, que como todos nós apenas se foca no assunto de interesse, enviando todo o resto para o inconsciente. O conteúdo está lá, apenas não está acessível nem ao aluno, nem ao professor. Mas pode estar.
Um terapeuta, ao usar a escuta flutuante, treina seu cérebro para ouvir apenas palavras ou frases que não têm nada a ver com o assunto proposto. Anota ou memoriza cuidadosamente essas palavras, na sequência cronológica em que foram ditas e os afetos que elas causaram. É uma técnica difícil de ser executada à perfeição, demanda treino e sabedoria, mas é compensatória por demais: as palavras aparentemente soltas e desconexas vêm do inconsciente, e são uma espécie de pedido de socorro que chega do sótão mais profundo da mente do cliente.
De posse dessas informações, o terapeuta traça um panorama do quadro do cliente. A parte mais difícil é conduzi-lo de modo que ele mesmo descubra esse quadro, para que possa dele se apoderar. O momento da descoberta reproduz o momento do sofrimento original. A esse momento chamamos catarse. Relembrando finalmente o acontecimento que travou sua vida, foi reprimido para o inconsciente para evitar dores insuportáveis, o sujeito se liberta através da dor. Relembrando, revivendo e sofrendo, ele pode finalmente esquecer e seguir. Está livre, já não há gaiolas nem passarinhos presos, e ele já não é mais o carcereiro de si mesmo.
Se a terapia for bem sucedida, dentro do set protegido do consultório e sob os cuidados do terapeuta em quem confia, o sujeito finalmente olha para o abismo, o abismo olha de volta para ele, e ele se reconcilia consigo mesmo e com a vida. Quando se reconcilia com a vida, propõe-se a ser feliz, e então as flores e as pessoas ganham mais encanto.
De repente, a busca cessa e tudo se torna normal. Tudo e todos se mostram como realmente são: normais. A anormalidade só existe para aqueles que se proíbem de olhar para o abismo.
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