TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
"devia ter aceitado as pessoas como elas são"
Embora se debata muito o autismo, bastaria observar com cuidado o grande guarda-chuva que abrange todos os autistas para concluir que esse segmento é uma pequena amostra da grande variedade humana.
Assim como no conjunto de seres humanos, o conjunto de autistas abrange todos os tipos de seres: na área da inteligência, autistas com dificuldades cognitivas, com inteligência normal e alguns gênios; na área da comunicação, autistas que não falam, outros que pouco falam e brilhantes oradores; na área dos afetos, autistas refratários e autistas carinhosos; na área da medicina, autistas depressivos, eufóricos, com câncer, diabéticos, obesos, bulímicos, esquizofrênicos, gripados, psicóticos; na área social, autistas que se isolam e autistas que se chegam; na área da aprendizagem, autistas com dificuldades e autistas que aprendem sem ajuda; na área da sexualidade, autistas gays e autistas heteros.
Se fizermos um estudo detalhado, veremos, inclusive, que a porcentagem disso tudo é semelhante, quando consideramos o universo dos seres humanos e o universo dos autistas.
Visto desse modo, toda área do conhecimento humano deveria ser considerada como tendo alguma utilidade para os autistas, assim como tem utilidade para os seres humanos. Em princípio, e nada existe para contradizer, autista é um ser humano.
Uma mentira detalhadamente elaborada e espalhada sem pudor tirou da Psicanálise o direito real de contribuir com o autismo: alguém um dia disse que o Psicanalista Bruno Bettelhein inventou que o autismo era causado por mães frias e intelectualizadas. Em 1950 talvez fosse difícil argumentar contra isso, mas estamos na era do Google. Com uns poucos toques podemos ficar sabendo que o Psiquiatra Leo Kanner afirmou aquilo, e que Bettelhein não era Psicanalista: só pra ter uma ideia, ele se suicidou um dia depois que o governo americano descobriu que ele havia falsificado seu certificado.
Bettelhein era uma vergonha para a Psicologia e para o ser humano. Pegar o exemplo de um profissional desprezível, espalhar um boato e universalizar para "a Psicanálise diz que a causa do autismo é a mãe geladeira" parecia legal. O que não me parece legal é a perpetuação de uma mentira.
Na verdade, a meu ver, o que incomoda na Psicanálise, em particular com relação ao autismo, é que ela prega a aceitação, a arte de ser feliz com o que temos e o que somos. A Psicanálise não se propõe a mudar ninguém e, no autismo, todo mundo quer mudar a pessoa.
Dessa forma, claro que, se você quer me mudar, a última porta em que vai bater é a do Psicanalista, e é seu direito de escolha. Só não é legal usar como argumento o que sabe que não é verdade.
A Psicanálise navega no campo dos Direitos Humanos: todos são cidadãos plenos de direitos e deveres, e todos, sem exceção, independentemente da sua condição, têm o direito de escolher o que quiserem ser. A criança com deficiência deve ser ouvida e ter a prioridade de escolha, como reza a Convencão. Para a Psicanálise, o nada sobre nós sem nós chegou 100 anos antes, com Freud. Nós ouvimos o nosso cliente e cuidamos para que possa ser o mais realizado e feliz possível.
Por isso é difícil lidar conosco: não estamos no mundo para modular o filho que os pais querem, estamos no mundo para ajudar o filho a ser feliz do jeitinho que é.
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