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TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
1 - Denise olha-se no espelho e vê uma garota feia: magra, os ossos das clavículas saltam, espinhas no rosto, duas inflamadas, aqueles cabelos que teimam em não ficar sedosos, olhos sem brilho mais embaçados ainda pelos óculos grossos (poderia tirar os óculos, mas aí nem se enxergaria), seios menores do que duas peras. Sem graça, sem graça nenhuma, desprovida de graça.
Ela sabe que é por isso que as amigas não a chamam para festas ou para participar das animadas conversas em grupo. Os garotos, claro, preferem ficar com suas amigas, e Denise acha que eles estão certos: quem iria gostar de alguém tão sem graça?
Mas Denise estuda com afinco, e é a melhor aluna da classe. Nas épocas das avaliações e trabalhos, os meninos todos preferem ficar com ela, e isso compensa todas as festas e rodas de conversas que perdeu e perde.
2 – Joca é jogador de futebol, está começando, mas quer fazer uma carreira bem sucedida. Dedica-se aos treinos e geralmente fica após o término dos exercícios praticando fundamentos. Quando chega ao vestiário, os colegas já estão saindo, então ele tem que se apressar para tomar banho e não perder o ônibus.
Joca acha deprimente o vestiário ser comum a todos, os chuveiros perfilados e aqueles homens nus conversando como se fosse normal. Acha que gostar de tomar banho com outro homem não é coisa de homem. Prefere treinar e chegar depois.
O técnico acha o empenho de Joca interessante, mas decidiu proibi-lo de ficar depois do horário, porque tem atrasado as saídas de todos. Joca está procurando outro clube onde possa treinar após o horário e não depender de ônibus para voltar para a concentração.
3 – Marília é professora universitária. Delicada e dedicada, de educação refinada e vasta cultura, ela é constantemente procurada pelas pessoas para aconselhamentos. Solícita, atende a todos com sorriso no rosto e prontidão, sejam alunos, funcionários ou os próprios colegas.
Marília é casada, mas na Universidade quase ninguém conhece Pablo. E mesmo os que o conhecem é só de passagem, eles nunca convidam os amigos para um café na casa deles. Pablo bebe e, quando bebe, fica violento. Levanta a voz, abre discussões sem nexo e às vezes agride Marília. Ela retruca, xinga também e bate nele, não vai deixar que ele vença essa disputa.
Denise, Joca e Marília estão lançando mão do que Freud chamou de “mecanismos de defesa”. São defesas psicológicas que o Ego usa para se proteger das exigências do Id e do Superego, anunciados por sentimentos perigosos como ansiedade, culpa, medo e outros mais.
Os mecanismos de defesa exigem o investimento de grande energia, e reduzem também as exigências da libido. Às vezes eles reduzem a ansiedade, então são satisfatórios. Outras vezes não são capazes disso, e geram neuroses.
Denise usa o que chamamos de intelectualização, uma forma de compensação que, ao lançar mão da inteligência e do esforço acadêmico resolve o problema de se achar feia; Joca usa uma formação reativa, que caracteriza comportamentos homofóbicos camuflados porque, na verdade, sente-se atraído por pessoas do mesmo sexo: estar tomando banho no mesmo vestiário onde outros homens nus interagem pode fazer com que sua verdadeira pulsão apareça. Marília está sob o poder da identificação com o inimigo: sabe que Pablo não atingirá o nível dela, que é preciso um nível semelhante entre duas pessoas para haver diálogo, então ela desce ao nível dele.
São muitos os mecanismos de defesa, e todos são inconscientes. A pessoa usa e abusa sem perceber que está presa dentro de um círculo que não a deixa ser feliz. O preço a pagar é sempre alto, se o sofrimento presente não for suficientemente forte para levar a pessoa a buscar ajuda. A defesa psicológica protege o Ego de danos temporariamente, mas não resolve o problema do relacionamento com o outro, que se torna crônico e rotineiro.
Quando, com a ajuda do terapeuta, a defesa psicológica fica clara, há uma libertação. Denise passa a se aceitar como é, inclusive descobrindo seus lados belos; Joca define com clareza sua sexualidade; Marília resolve o conflito conjugal, ou com Pablo aceitando um tratamento, ou com o divórcio libertador.
O reconhecimento consciente do uso de uma defesa devolve à pessoa o jeito normal de agir, e ela pode então passar a ser a mesma pessoa em todos os ambientes onde convive. Diante do espelho, na solidão do quarto, ou no refeitório da escola; no campo ou no vestiário; no trabalho ou no lar, não precisamos usar a máscara nem para nós mesmos. O alívio que isso traz não dá pra medir, tanto para si mesmo quanto para o próximo. Porque voltamos a ser nós mesmos, e é o que as pessoas desejam para nos respeitar e confiar em nós.
Você não quer pensar um pouco sobre se você agiria da maneira que age se seu filho não fosse autista?




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