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AUTISMO E PSICANÁLISE – III



TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

“Se você quiser esquecer alguma coisa, não pode ficar fazendo força pra esquecer, tem que fazer força pra lembrar. É assim que acontece nas provas da escola: quanto mais tenta lembrar, mais esquece” – Luan Alejandro
Inúmeras experiências da neurociência atual têm comprovado as teses do Inconsciente propostas por Freud. Não foi ele o primeiro a falar dessa área vasta da mente, mas ninguém até então havia sistematizado técnicas para acessa-lo e usar seus conteúdos como ferramenta terapêutica. A brilhante sacada de que lembrar é a melhor forma de esquecer resume bem, embora seja, a princípio, difícil de compreender. É certo que o Luan explicou direitinho, e até exemplificou.
Uma explicação clara: traumas ficam guardados no inconsciente e travam nossa vida. Para resolve-los, precisamos traze-los ao nível consciente, vive-los novamente e só então poder esquece-los. Enquanto não pudermos lembrar do trauma não poderemos abandona-lo. A isso a psicanálise chama catarse, e é isso que o Psicanalista faz por você. Menos, é claro, no dia da prova da escola.
Os casos curiosos de cegos que “enxergam”, que a ciência chama de blindsight (visão cega), ajudam a compreender o conceito. Cientistas ingleses, observando o caso de um médico africano que ficou cego devido a dois AVCs devastadores, chamou a atenção para o poder do inconsciente de Freud. Os acidentes destruíram o córtex visual do médico, área responsável pela codificação das imagens que os olhos mandam para o cérebro. Os olhos ficaram intactos e funcionais, mas o cérebro já não reconhecia imagens, luzes ou sombras, e ele ficou cego.
Aproveitando os conhecimentos neurológicos que o médico detinha e era sua especialidade, os cientistas fizeram alguns testes e descobriram que ele era capaz de reconhecer expressões faciais, desde que os rostos apresentados a ele passassem rapidamente, na velocidade subliminar. O espanto levou à busca de mais sujeitos na mesma situação, e em todos os cientistas foram comprovando o fenômeno da visão cega.
Uma pequeníssima área no assoalho do cérebro – a área fusiforme – especializou-se em reconhecimento de expressões faciais. Uma necessidade dos homens antigos, que precisavam reconhecer a hostilidade do desconhecido, e que foi tendo sua utilidade reduzida pela evolução: hoje em dia, expressões hostis não levam à luta e à morte como naquela época. A área fusiforme não desapareceu, e sua função está preservada, mas tornou-se inconsciente: você reconhece a expressão de todos os rostos do metrô na hora do rush, mas não sabe que reconheceu, e usa essa capacidade apenas em casos extremos para ativar o instinto de luta ou fuga.
Pois o médico cego, e outros depois dele, passaram a usar a área fusiforme mais intensamente, porque perderam o córtex visual, mas na velocidade de reconhecimento do inconsciente.
Você, com certeza, já me ouviu dizer que o autista é o homem das cavernas, que por algum motivo não evoluiu o suficiente para conviver em aglomerações urbanas modernas. Que mantém características do caçador/coletor, e que essa característica se deve à deficiência qualitativa de Fatores Neurotróficos Derivados da Glia ou do Cérebro (GNDF e BNDF). Essa teoria, que é apenas uma teoria, levou à construção da Dieta Sensorial, que é a modulação do ambiente favorável a todos os sentidos, para aumentar a produção desses fatores e possibilitar a remoção de detritos provenientes da apoptose celular.
A falta da fagocitação obstrui áreas cerebrais, obrigando o sujeito a buscar outros caminhos, mais longos e lentos, e também constrói um modo diferente de pensar e agir. Essa é a personalidade autista: um cérebro plástico que aprende a usar áreas adjacentes para compensar as que estão obstruídas. Como estas são especializadas, aquelas vão permitir uma autonomia de ações, porém diferentes.
Aí entra a área fusiforme, o reconhecimento de expressões faciais a nível inconsciente e a ativação da luta ou fuga. Pequenos detalhes que não percebemos conscientemente, e que acabamos desprezando porque analisamos a nível consciente, não passam pelo crivo do autista porque nele é o inconsciente que capta, analisa e comanda. Daí que suas reações são incompreendidas por nós, mas perfeitamente justificáveis.
Nós precisamos olhar para alguém por um tempo relativamente longo, para compreender seus sentimentos expressos no rosto, e apenas quando a expressão é extremamente hostil providenciamos o afastamento imediato. Autistas percebem pequenas nuances que o ser humano, através da hipocrisia, aprendeu a esconder. É o inconsciente, rápido e cirúrgico como uma bala. Por isso eles não precisam olhar para os olhos do outro, basta um relance e o blindsight entra em ação. 
É possível modificar isso? Muitas vezes sim, outras vezes não, o córtex pode ser limpo através de modulação ambiental. Mas é possível melhorar nossa compreensão do fenômeno e trabalhar nosso próprio interior para melhorar a convivência e a harmonia. Isso a Psicanálise sabe fazer.
Numa oficina da Abraça em Manaus, no segundo dia uma moça perguntou ao Luan como é que ele conseguia passar dois dias inteiros na sala das palestras, lendo, escrevendo ou usando o computador, e não se cansava ou aborrecia. Ele respondeu: “é que meu pai está aqui”.
A presença de um rosto conhecido e acolhedor bastava.

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