TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
“Eu sou autista. Autista é uma pessoa que é boa em matemática, mas esquece o nome das pessoas” – Luan Alejandro
Pense logicamente:
1 – somos fruto de uma única célula, o ovo ou zigoto, que traz as informações, herdadas de mãe e pai, de como e o que seremos: cor dos olhos, cabelos, altura, sinais físicos, tendências a doenças ou transtornos, até o tempo de vida;
2 – dentre essas informações herdamos também a memória da espécie, e aprendemos coisas que não nos ensinam e numa vimos, como andar ereto sobre dois pés;
3 – herdamos também características físicas e psíquicas de antepassados longínquos que não estão presentes nos nossos pais e avós, através do gene recessivo que de repente se impõe;
4 – já sabemos que o pensamento é matéria em forma de energia, e que é possível registrar as modificações no cérebro quando estamos pensando.
5 – se o ovo já traz em si características físicas e psíquicas de antepassados próximos e longínquos, por que não traria também suas memórias e pensamentos? Por que acreditamos que um bebê, ao nascer, não tem nenhuma memória? Resposta: porque todas essas lembranças estão guardadas no inconsciente, e não vão sair de lá a não ser em ocasiões especiais de alteração mental.
Françoise Dolto falava sobre a “palavra justa”, uma expressão que define o ato de contar a verdade para a criança. Há um poder imenso e uma função libertadora na verdade, porque não é possível mentir para uma criança: a predominância do Id sobre as outras instâncias permite que ela atue preferencialmente a nível inconsciente e capte a mentira, mesmo que não consiga verbalizar tudo isso.
Exemplo: por que crianças adotadas, mesmo as que foram adotadas ao nascer e não conheceram os pais biológicos, têm problemas de aprendizado? Não será uma simplificação grosseira concluir que foi falta de vitaminas durante a gestação? Seria demais pensar que aquela criança traz no inconsciente memórias de falas e sentimentos da mãe biológica? Que está em busca da sua verdade, a que lhe é subtraída em nome do amor?
Se você, ao ficar grávida, tocar determinada música toda vez que estiver calma e feliz, após o nascimento seu filho se acalmará toda vez que ouvir essa música. Nem é preciso citar autores, esse é um exercício comum a quase todo estudante de psicologia.
Os sonhos cotidianos, carinhosamente acalentados, sobre como e o que será o futuro filho são constantemente verbalizados e sentidos. Todos esses sonhos são passíveis de frustrações, porque um filho raramente é aquilo que seus pais sonharam e, quando se propõe a ser, pode viver infeliz e irrealizado. Não temos essa compreensão, de que nossos sonhos podem vir a ser o pesadelo deles, porque sempre queremos o melhor e não percebemos a linha que separa o que é melhor para nós e o que é melhor para eles.
As decepções paternas, no entanto, chegam mais tarde, geralmente na adolescência do filho, quando ele define caminhares diferentes: na profissão, na sexualidade, nas escolhas pessoais, nas pessoas com quem deseja conviver, nos vícios e nas virtudes. É senso comum de que adolescentes são mesmo rebeldes, e o fato é que já não dependem de nós para suas escolhas. Além disso, vão se tornar adultos em pouco tempo e nos conformamos com o fato de que a vida de um adulto pertence a ele. Mais: vamos morrer logo, portanto vai passar.
Mas não é assim quando a decepção chega cedo, e constatamos que não vai ser possível realizar nossos sonhos através dos filhos. Entre tristes e chocados, mentimos: para nós mesmos, para os outros e para nossos filhos. Buscamos com afinco maneiras de consertar o estrago feito nos planos, e tentamos resgatar um pouco do filho perdido, o que realizaria nossos desejos.
E então a criança real, aquela que está à nossa frente, passa a se deparar com a mais cruel das dúvidas, a que não tem resposta: “quem sou eu”?
Ontem atendi um menino de oito anos e sua mãe. Ele tem medo. Medo, não, medos. Verbaliza esses medos de um modo tão angustiante que dói a alma de quem ouve. Come e tem medo que a comida erre o caminho e vá para o pulmão; bebe e tem medo de engasgar; dorme e tem medo de fantasmas, os pesadelos o assustam; acorda e tem medo de estar sozinho, abandonado por todos; respira e tem medo de morrer pelo efeito da poluição.
Conversei com ele, embora ele só respondesse para a mãe. Conversei com a mãe, coisas básicas que me dessem pistas, não faço e não gosto da anamnese clássica, invasiva. Foi num instante que a mãe, levantando-se da poltrona, sussurrou ao meu ouvido: “a médica falou que ele é autista”. Ninguém sabe, ninguém pode saber porque ele pode ficar sabendo.
Já tinha feito as observações, alguns testes não percebidos, já tinha pedido ao menino para andar no consultório, já sabia o que ela me contou, e ela sabia que eu já sabia, mas ele não pode saber. A família ainda não descobriu o poder de cura de uma verdade. Vou precisar conversar a sós com o menino, pedir muita ajuda a Françoise Dolton e usar a “palavra justa” com ele. Antes disso, tenho um trabalho mais árduo ainda: mostrar para a mãe que a simples expressão da verdade basta para extinguir os medos.
Aquele menino precisa respirar, precisa finalmente descobrir quem é ele.
Luan pode não ter definido exatamente o autismo, embora eu a considere a melhor definição que ouvi, mas definiu quem ele é. Luan não tem medos.
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